Polícia faz busca na casa dos músicos do Gurizada Fandangueira

Segundo depoimentos, fagulha de artefato acionado pela banda provocou incêndio que matou 238 pessoas na boate Kiss, em Santa Maria

Elder Ogliari, O Estado de S. Paulo

06 Fevereiro 2013 | 19h44

PORTO ALEGRE - A Polícia Civil do Rio Grande do Sul cumpriu nesta quarta feira, mandados de busca e apreensão na casa dos cinco integrantes da banda Gurizada Fandangueira, em Santa Maria e Rosário do Sul, nesta quarta-feira, 6. O material coletado, sobretudo imagens em papel ou copiadas de computadores, pode comprovar que a banda usava pirotecnia em seus shows antes da apresentação na boate Kiss, na madrugada do dia 27 de janeiro.

Naquele domingo, segundo depoimento de testemunhas, a fagulha de um artefato acionado no palco pela banda atingiu o revestimento acústico do teto, provocando um incêndio que matou 238 pessoas. O conteúdo das peças apreendidas, que não foi divulgado pelos policiais, vai subsidiar o inquérito que apura as causas e vai apontar os responsáveis pela tragédia.

A investigação feita por um grupo de delegados da Santa Maria já interrogou cerca de cem testemunhas e tem outras 500 para ouvir nas próximas semanas. Nesta quarta-feira foram ouvidos seis bombeiros que participaram da operação de resgate no dia do incêndio. Outros seis prestarão depoimento nos próximos dias. Os proprietários da casa noturna, Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann, estão presos e serão ouvidos novamente antes do final do inquérito, previsto para o início de março.

Entre as causas apuradas até agora a polícia considera que é certo que houve o emprego de um artefato que provocou o fogo, que a fumaça provocada pela queima da espuma que revestia a casa noturna tornou-se a causa direta da maioria das mortes, por asfixia, e que a lotação excessiva do local dificultou a fuga na hora do pânico.

Presos. A Justiça de Santa Maria negou os pedidos de revogação da prisão temporária dos envolvidos no incêndio da boate Kiss. A decisão, tomada na terça-feira pelo juiz Ulysses Fonseca Louzada, da Comarca de Santa Maria, foi divulgada nesta quarta-feira. Os advogados dos suspeitos alegaram que a prisão de seus clientes seria inconstitucional. O magistrado entendeu que a medida é necessária para que a polícia conclua a investigação dos fatos que desencadearam a tragédia e identifique os responsáveis pela mesma.

"Ainda há diligências a serem realizadas, tais como acareações, buscas, reconstituições dos fatos, análise de documentos e perícias ainda por serem juntadas, reinquirições dos acusados e mesmo oitivas de novas testemunhas, bem como há circunstâncias do fato que não puderam ser esclarecidas no exíguo prazo em que os investigados se encontram presos", justificou o magistrado.

Desde o dia 28 de janeiro, dois integrantes do Gurizada Fandangueira - o vocalista Marcelo de Jesus dos Santos e o produtor musical Augusto Bonilha Leão - estão presos temporariamente, assim como os dois sócios da Kiss, Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann. Spohr, que permanecia internado em um hospital de Cruz Alta sob custódia da polícia, teve alta na noite de terça-feira e foi encaminhado à Penitenciária Estadual de Santa Maria. Todos ficarão na mesma prisão, mas em celas individuais e separadas, pelo período de 30 dias.

Objetos. A Polícia Civil deteve um homem que estaria vendendo objetos furtados no dia da tragédia. O suspeito, que não teve o nome divulgado, tem 22 anos e teria se passado por familiar de uma das vítimas, de quem teria roubado um celular, um relógio e R$ 50. No final da tarde, ele ainda estava na delegacia de Santa Maria prestando depoimento enquanto os policiais esperavam que a Justiça decretasse sua prisão temporária.

Feridos. O número de feridos hospitalizados depois da tragédia da boate Kiss caiu de 81 para 75 de terça-feira para quarta-feira, segundo boletim divulgado pela Força Nacional do SUS. Um total de 21 pacientes ainda estava respirando com ventilação mecânica ao final da tarde, sendo 22 em hospitais de Porto Alegre e um em Santa Maria.

O incêndio provocou a internação de 134 pessoas, a maioria por problemas pulmonares e uma parte menor por queimaduras severas. Desde então, os hospitais registraram quatro óbitos, que elevaram o total de vítimas de 234 para 238, e deram alta a 55 pacientes.

A vítima mais recente da tragédia é o comerciário Pedro Almeida, 20 anos, enterrado nesta quarta-feira no Cemitério Ecumênico Municipal de Santa Maria. O jovem, que havia trancado matrícula no curso Técnico em Informática que fazia até 2010, foi dos primeiros a serem transferidos para Porto Alegre, ainda no dia da tragédia. Ele estava internado na Santa Casa de Misericórdia e morreu no início da tarde de terça-feira.

Dos pacientes que seguem internados, 45 estão em sete hospitais de Porto Alegre, 26 em três hospitais de Santa Maria, três em um hospital de Canoas e um em Caxias do Sul.

Emergência. A prefeitura de Santa Maria poderá contratar servidores temporariamente sem concurso, requisitar horas-extras a seu quadro atual, comprar material para obras ou medicamentos sem licitação e, ainda, criar um fundo, com recursos orçamentários, para atender despesas imprevisíveis e urgentes decorrentes da tragédia que matou 238 pessoas e deixou outras 130 feridas depois do incêndio da boate Kiss, no dia 27 de janeiro.

As medidas serão adotadas de acordo com as necessidades, ainda em levantamento, mas já foram autorizadas pela Secretaria Nacional da Defesa Civil, que reconheceu, na terça-feira, 5, o decreto de situação de emergência emitido pelo prefeito Cezar Augusto Schirmer (PMDB), no dia 1º de fevereiro. "Vamos procurar ajudar feridos, envolvidos com a tragédia e familiares de vítimas com apoio psicológico, medicamentos e até cestas básicas, se for o caso", adianta o secretário extraordinário de Ação Comunitária Adelar Vargas.

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