Polícia faz operações em favelas da zona norte do Rio

Motivo seria busca por homem que teria liderado invasão ao Morro dos Macacos, estopim para guerra na região

Pedro Dantas, Alfredo Junqueira e Solange Spigliatti, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2009 | 10h52

A polícia continua com operações na manhã desta segunda-feira, 19, na zona norte do Rio em favelas que registraram confrontos no final de semana. Na Favela de Manguinhos, uma operação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) tropa de elite da polícia fluminense provocou tensão entre os motoristas que trafegam pela Avenida Bulhões de Carvalho, no trecho conhecido como "Faixa de Gaza" mais cedo. Por volta do meio dia, a via foi fechada para o trânsito. Moradores relatam que houve intensa troca de tiros.

 

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No Jacarezinho, policiais do 16.º Batalhão de Polícia Militar realizam uma operação junto com o 3.º BPM e a Companhia de Cães. Um dos objetivos das duas incursões seria a captura de Fabiano Atanázio, o FB, chefe do tráfico na Vila Cruzeiro, na Penha, que teria liderado a tentativa de invasão ao Morro dos Macacos, na madrugada de sábado. Duas pistolas e cerca de 250 quilos de maconha foram apreendidos.

 

No fim da manhã, a polícia anunciou a apreensão de armas e munição no Morro da Chatuba, na cidade de Mesquita, na Baixada Fluminense. De acordo com as primeira informações, o armamento pertenceria a traficantes do Morro do Jacarezinho que participaram da invasão ao Morro dos Macacos.

 

Foram encontrados um rifle calibre .30, uma escopeta calibre 12, um fuzil 762, uma metralhadora 9mm, uma granada, oito fardas pretas similares às usadas pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope), 600 trouxinhas de maconha e munição de diversos calibres.

 

A ocupação da PM também continua nos morros dos Macacos, Quieto, Matriz e São João, e não há previsão de término. O objetivo seria evitar a fuga de criminosos que poderiam estar dentro dessas favelas e que teriam envolvimento com a invasões. Nesta manhã, quatro pessoas foram detidas em um carro roubado, saindo do Morro do Quieto.  

 

Policiais fecham o trânsito na Avenida Leopoldo Bulhões de Carvalho durante operação no Manguinhos

 

Histórico

 

Após os traficantes do Comando Vermelho (CV) tentarem entrar no Morro dos Macacos, dominado pela facção criminosa Amigos dos Amigos (ADA), no sábado, a polícia iniciou uma operação para tentar controlar a ocupação e um helicóptero que sobrevoava o local acabou atingido por um disparo. A aeronave caiu e provocou a morte de dois soldados da PM.

 

De acordo com o relato de moradores, o confronto entre traficantes começou por volta de 1h30 e se estendeu durante a manhã e início da tarde. Outras dez pessoas teriam morrido durante o conflito entre o tráfico ou em tiroteio com a polícia, entre eles três rapazes que não seriam bandidos. Neste mesmo dia, ao menos 10 ônibus foram incendiados nos morros do Jacarezinho e da Mangueira.

 

No domingo, mais dois homens que seriam traficantes morreram durante troca de tiros com policiais na Favela do Jacaré. Enquanto agentes do Batalhão de Operações Especiais (Bope) faziam operação no local houve intenso tiroteio.

 

Evidênciado por causa da recente escolha como sede da Olimpíada de 2016, o Rio de Janeiro acabou se tornando destaque de jornais internacionais devido aos confrontos nos morros. As reportagens levantam questões sobre a capacidade das autoridades fluminenses e do Brasil em manter a segurança na cidade durante os Jogos Olímpicos.

 

O secretário de Segurança Pública do Estado, José Mariano Beltrame, e o governador, Sérgio Cabral, se defenderam e afirmaram que a violência é um problema histórico no Rio, mas que há métodos de controlar e acabar com ela.  "Dissemos ao comitê olímpico que não é uma tarefa simples, eles sabem disso", disse Cabral no sábado.

 

"O que digo ao COI Comitê Olímpico Internacional e à população é o seguinte: nós temos problemas históricos. Mas temos projetos, propostas. Existem políticas de segurança, de combate e de pacificação, um planejamento para recuperar o efetivo e temos inteligência policial", afirmou Beltrame. "As informações não são negadas e não fazemos promessas pirotécnicas ou efêmeras", destacou no domingo.

 

 

Disputas

 

As Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) nos morros do Rio aumentou o controle do Estado sobre as regiões dominadas por facções criminosas e pelo tráfico de drogas, o que aumentou a disputa por áreas que ainda não estão ocupadas pelo Secretaria de Segurança Pública. As obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) também têm reforçado o policiamento nas favelas. O primeiro sinal do aumento da disputa pelos pontos de venda de drogas veio da zona sul, onde estão as favelas mais rentáveis para o tráfico.

 

Em março, após a ocupação da Favela Santa Marta, em Botafogo, o gerente do tráfico local, Francisco Rafael Dias da Silva, o Mexicano, se aliou aos traficantes da facção criminosa Amigos dos Amigos (ADA) na Rocinha para tentar tomar a Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, dos antigos aliados do Comando Vermelho (CV). A incursão fracassou e pelo menos dez comparsas de Mexicano foram mortos.

Na zona norte, os tiroteios entre criminosos do Morro dos Macacos, dominado pela ADA, e do Morro São João, controlado pelo CV, ocorrem desde os anos 90, mas se intensificaram nos últimos meses. Em setembro de 2008, a Delegacia de Combate às Drogas frustrou um plano de invasão idêntico ao colocado em prática na madrugada de sábado.

A disputa mais sangrenta ocorre hoje no Complexo da Maré. O conjunto de favelas na zona norte do Rio é dividido por três facções criminosas. Lá, os confrontos duram mais de quatro meses e 40 pessoas já morreram, de acordo com ONGs.

Enquanto isso, nas quatro UPPs, que englobam as comunidades de Santa Marta, Batam, Cidade de Deus, Chapéu Mangueira e Babilônia, o clima é de convivência pacífica entre policiais e moradores, sem tráfico ostensivamente armado, permitindo que os moradores do asfalto voltem a conviver com a favela.

 

(Com Alexandre Rodrigues, de O Estado de S.Paulo, e Agência Estado)

 

Atualizado às 13h para acréscimo de informações.

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