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Fuminho estava na lista de mais procurados do Ministério da Justiça do Brasil Ministério da Justiça

Polícia Federal prende em Moçambique Gilberto Fuminho, gigante da cocaína

Traficante, considerado uma das pessoas mais procuradas pelo Brasil, foi detido em operação que contou com apoio do departamento antidrogas dos Estados Unidos. Prisão é um desastre para o PCC, avalia promotor que investiga a facção

Marco Antônio Carvalho e Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2020 | 16h45
Atualizado 13 de abril de 2020 | 23h03

SÃO PAULO - A Polícia Federal prendeu nesta segunda-feira, 13, em Maputo (Moçambique), Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, considerado um dos criminosos mais procurados pelo Brasil. A atuação dele à frente de um cartel de drogas baseado na Bolívia alimentou por anos a facção Primeiro Comando da Capital (PCC) com armas e cocaína, produto esse também enviado à África e à Europa em contêineres de navios. O ministro da Justiça, Sérgio Moro, informou que trabalhará junto às autoridades do país africano para trazer Fuminho ao Brasil, “onde responderá por seus crimes”. 

A PF classificou a ação desta segunda como uma “megaoperação internacional”, que contou com a participação do Itamaraty, do departamento antidrogas dos Estados Unidos (DEA), do Departamento de Justiça americano e do Departamento de Polícia de Moçambique. “O preso era considerado o maior fornecedor de cocaína a uma facção com atuação em todo o Brasil, além de ser responsável pelo envio de toneladas da droga para diversos países do mundo”, descreveu a polícia federal brasileira.

Em nota, a PF lembrou que Gilberto Fuminho estava por trás de um recente plano de resgate de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder máximo do PCC. "A descoberta desse plano culminou com a decretação de GLO – Garantia da Lei e da Ordem, no perímetro da Penitenciária Federal de Brasília." Para evitar qualquer tentativa, o Exército foi enviado no fim do ano passado para as imediações do presídio. Outros dois planos já haviam sido frustrados quando Marcola estava preso em São Paulo. 

A atuação de Fuminho no mundo do crime vem dos anos 1990, quando como ladrão de banco atuou ao lado de Marcola. O Estado detalhou em 2018 um pouco da sua história criminosa. Ele cumpriu pena com o amigo na Casa de Detenção, no Carandiru, de onde fugiu em 1999 e nunca mais foi recapturado. O dinheiro dos roubos a banco ele investiu no tráfico de drogas, área onde cresceu até se tornar um grande traficante na zona sul da capital paulista. Oficialmente, ele nunca entrou para os quadros do PCC, mas ao longo dos anos se transformou no mais importante aliado do grupo paulista. 

Na Bolívia, adquiriu fazendas e se tornou um grande narcotraficante, nas palavras do promotor Lincoln Gakiya, que investiga a atuação do PCC. "Apesar de não ser um 'irmão', não ter sido batizado, ele é um indivíduo que goza de muito respeito no mundo do crime pela posição que alcançou. É sócio de Marcola e está por trás de planos de resgate. A prisão é um desastre para facção e, obviamente, para nós, é muito importante", disse ao Estado na noite desta segunda.

Sua rede de contatos se estendeu à Europa e aos Estados Unidos. Na Itália, por exemplo, é aliado da 'Ndrangheta, a máfia calabresa, com quem negociou remessas de cocaína. Em 2016, um veleiro enviado da Bahia por Fuminho foi apreendido pela Diretoria Antimáfia da Itália ao se aproximar de Gioia Tauro, o gigantesco porto de contêineres da Calábria, no sul da Itália. Arrastava 500 quilos de cocaína em uma rede embaixo do casco.

Não é de agora que a DEA americana estava no encalço do brasileiro. Em 2014, quando ele foi localizado nos Estados Unidos, os agentes se mobilizaram para prendê-lo, mas ele e comparsas conseguiram escapar. O brasileiro havia entrado no radar dos americanos quando começou a fazer contatos da Bolívia com o cartel de Sinaloa, no México.  

Seu nome voltou a surgir com evidência no Brasil depois da morte de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e de Fabiano Alves de Souza, o Paca, em fevereiro de 2018. Os chefes do PCC foram assassinados no Ceará e as suspeitas de autoria envolveram o nome de Fuminho.

O promotor Gakiya disse que não se surpreendeu com o fato de a prisão ter ocorrido em Moçambique. Ele explicou que Fuminho se desloca por vários países para não facilitar o trabalho de localização pela polícia e conta até mesmo com um jato e piloto particulares. Além disso, a África é importante ponto de conexão para a droga que sai do Brasil com destino à Europa. "É uma conhecida rota de entrada", acrescentou. 

Com a prisão, o PCC deverá encontrar dificuldades para manter o fluxo de cocaína vindo da Bolívia. Soma-se a isso o fechamento das fronteiras imposto pela crise do coronavírus, que já vinha afetando a oferta da droga do país vizinho e a demanda no mercado local. Fuminho foi a pessoa que abriu as portas da Bolívia para a facção paulista, indicando caminhos para chegar direto aos produtores, acabando com o papel dos atravessadores, explicou o promotor. Com a prisão desta segunda, o crime terá de se reajustar. 

O diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, disse que a prisão é histórica diante da importância que Fuminho tem. O desmatelamento de uma rede internacional de produção e distribuição de droga, acrescentou ele, exige que os esforços prossigam para que o crime seja ainda mais enfraquecido. "O trabalho foi feito e merece elogios. Mas ele está só no começo. A notícia acende um alerta sobre o momento de tensão no crime que pode ocorrer por meio de rebeliões, ataques e afins", disse. "O espaço agora tem que ser ocupado pelo Estado."

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A história do primeiro brasileiro chefe de um cartel de drogas

Da Bolívia, Fuminho domina a produção e envia drogas e armas para o PCC

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2018 | 06h00

Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, vive há mais de dez anos na Bolívia. Estabeleceu-se na região de Santa Cruz de la Sierra. "Ele organizou um cartel, o primeiro chefiado por um brasileiro", disse um dos policiais envolvidos na investigação de seu grupo. Fuminho domina a produção da droga. Da Bolívia, ele envia drogas e armas para o PCC. Usa contêineres nos Portos de Santos, Itajaí e Rio e veleiros no Nordeste para enviar cocaína para a África e para a Europa.

Aliou-se à 'Ndrangheta, a máfia calabresa, para abastecer a Europa. Em 2016, um veleiro enviado da Bahia por Fuminho foi apreendido pela Diretoria Antimáfia da Itália ao se aproximar de Gioia Tauro, o gigantesco porto de contêineres da Calábria, no sul da Itália. Arrastava 500 quilos de cocaína em uma rede embaixo do casco.

"Se você revistasse o barco não encontraria nada", contou o policial. De acordo com ele, a máfia calabresa é a principal compradora da droga de Fuminho. "Um quilo de cocaína em São Paulo vale US$ 5 mil. Na Europa, vale até US$ 40 mil. Quase metade do lucro fica com os integrantes da facção." Além de atrair a atenção da política italiana, Fuminho e o líder máximo do PCC, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, despertaram interesse da agência antidroga americana, Drug Enforcement Administration (DEA).

Agentes da DEA tentaram prender Fuminho pela primeira vez em 2014, quando o chefão foi localizado nos Estados Unidos por meio de escutas no telefone de Wilson José Lima de Oliveira, o Neno, que cuidava da arrecadação da mensalidade dos filiados à facção. Pouco antes de os agentes americanos chegarem à mansão de Fuminho, os dois embarcaram em um avião e foram para o Panamá.

+ Justiça manda soltar Gegê do Mangue, número 3 do PCC, a 2 semanas de júri

De lá, Fuminho voltou à Bolívia e Neno veio ao Brasil, onde seria preso três anos depois na Grande São Paulo. Para a polícia, além de mandar matar os líderes do PCC Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca, em fevereiro, no Ceará, Fuminho é o mandante do assassinato de Eduardo Ferreira da Silva, também em fevereiro, no Tatuapé, zona leste. Silva estava em uma Mercedes quando foi cercado por três pistoleiros encapuzados. Ele era o responsável pela escolta da mulher de Marcola e era suspeito de desviar dinheiro da facção.

Bancos 

Fuminho começou no mundo do crime como ladrão de banco. E atuou nos anos 1990 ao lado de Marcola. Nunca entrou para a facção e se transformou no mais importante aliado do grupo. "Vou repetir o que eu já disse: ele está virando o Pablo Escobar brasileiro", disse um outro delegado. Para a polícia paulista não há dúvida: Fuminho é o maior traficante do País. 

 

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