Polícia investiga se desvio de dinheiro motivou mortes

Pró-reitora da UFMT, que apurava o envolvimento de funcionários em irregularidades, já havia sofrido atentado

Eduardo Nunomura, RONDONÓPOLIS (MT), O Estadao de S.Paulo

30 Novembro 2007 | 00h00

A fotografia é de latrocínio, mas as investigações sobre a morte de três funcionários da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Rondonópolis, anteontem, se voltam mais para crime encomendado. Ontem, uma nova hipótese veio à tona nos dois inquéritos abertos sobre o caso: ameaças de morte que a pró-reitora Sorahia Miranda de Lima vinha recebendo por apurar irregularidades administrativas no câmpus de Rondonópolis. Ela chegou a desabafar sobre o problema com representantes dos estudantes em greve duas semanas atrás. "Ela disse que estava com medo, que já sofrera um atentado e tentaram invadir a sala dela em busca de um dossiê", afirmou Rodrigo Leandro, do Diretório Central dos Estudantes. O atentado teria ocorrido com o afrouxamento dos parafusos das rodas do carro de Sorahia, numa das freqüentes viagens que fazia a Cuiabá. Foi percebido a tempo, segundo outros alunos. "Estamos perplexos e indignados e, por isso, exigimos que o caso não caia na impunidade, como é comum por aqui."O assunto vem sendo tratado reservadamente na universidade. Envolveria desvio de recursos, com funcionários abrindo empresas para prestar serviços no câmpus e o uso de cartões corporativos. Ontem pela manhã, centenas de estudantes da UFMT, muitos vestidos de preto, saíram pelo centro de Rondonópolis com faixas de protesto. A reitoria e a prefeitura da cidade decretaram três dias de luto. Além da pró-reitora, foram mortos o prefeito do câmpus, Luiz Russo, e o professor Alessandro Luiz Fraga, do curso de Zootecnia. Os três estavam chegando de Cuiabá, onde Sorahia resolveu pendências administrativas na reitoria. Segundo as primeiras apurações, o homem encapuzado, que fez entre cinco e seis disparos, anunciou um assalto. Mas, para o delegado regional João de Morais Pessoa Filho, seria muita coincidência um ladrão estar esperando vítimas diante da casa da pró-reitora, no bairro de Colina Verde, na hora exata em que chegavam de viagem. O criminoso levou as carteiras e a bolsa das vítimas, mas as Polícias Civil e Federal suspeitam que documentos da universidade possam ter sido levados. Levar os pertences pessoais serviria para despistar a polícia. Outra hipótese, a de que a pró-reitora tentava obter para a UFMT um terreno que havia sido seqüestrado pela Justiça por pertencer ao Primeiro Comando da Capital (PCC), fruto de dinheiro do roubo do Banco Central de Fortaleza em 2005, também é investigada. A intenção de Sorahia era pouco conhecida até pelos colegas. Só na última reunião do Conselho de Administração da Reitoria ela falou de seu esforço em fazer da propriedade uma fazenda experimental para a Zootecnia. A Polícia Civil já ouviu 12 testemunhas. Nem a hipótese de crime passional foi descartada. A última relação afetiva de Sorahia teria sido conturbada.

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