Polícia ocupa Complexo da Maré no Rio

Um confronto entre a polícia e traficantes da Favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, zona norte do Rio, na madrugada desta quinta-feira, resultou na morte de um policial, um traficante e um morador, que chegava em casa no momento do tiroteio. Moradores contaram que Alexandre de Oliveira Matos, de 28 anos, que trabalhava como despachante, levou um tiro na testa à queima-roupa porque não ouviu as ordens de um PM para que ele parasse seu carro. Revoltados, moradores ameaçaram fechar a Avenida Brasil, uma das principais vias da cidade. Todo o Complexo do Maré foi ocupado pela polícia.O comandante do 22º Batalhão da PM, Carlos Carrijo, disse que policiais que faziam patrulhamento de rotina foram recebidos a tiros pelos bandidos, por volta de 1 hora de ontem. Na troca de tiros, o soldado Leonardo Leite Goulart, de 25 anos, morreu, e o capitão Otto Cardoso Filho, perdeu a visão do olho direito ao ser atingido por uma bala. Um outro PM levou um tiro de raspão no pescoço. Um bandido que trocava tiros com os policiais também morreu. O confronto ocorreu próximo ao batalhão da PM da Maré, que está em construção.Às 5 horas, houve novo tiroteio. O "caveirão", carro blindado do Batalhão de Operações Especiais (Bope), foi deslocado para a Nova Holanda. De manhã, todo o Complexo da Maré foi tomado por mais de cem policias por pelo menos 24 horas. Pelas ruas, era possível ver muitas cápsulas de balas deflagradas. Os policiais se concentraram nas entradas pela Avenida Brasil e a Linha Vermelha para impedir que os moradores interrompessem o trânsito. Temendo quebra-quebra, alguns comerciantes fecharam as portas. A candidata do PSB ao governo do Estado, Rosângela Matheus, cancelou a reunião que teria com líderes comunitários na favela.VítimaAlexandre Matos trabalhava numa empresa de importação e exportação que fica no centro da cidade. Dois sócios da firma, Emerson Tavares e Fábio Flores, que estavam com ele momentos antes de sua morte, contaram que ele era muito querido na vizinhança e costumava dizer que a favela não era um lugar perigoso. Eles disseram ainda que Matos trabalhou na quarta-feira até as 21 horas e foi beber chope com eles antes de ir para casa. Muito abalada, a mulher do despachante, Fernanda Brito de Jesus, de 28 anos, contou que não tem coragem de contar ao filho de cinco anos do casal sobre a morte do pai. "O que eu vou dizer a ele?" Revoltado, o cunhado de Matos, Ronaldo Souza, de 48 anos, afirmou que os policiais roubaram o celular e a carteira de Matos depois de matá-lo. "Isso é um absurdo. Quer dizer então que todo mundo que mora na favela tem que andar escondido?", disse, ao lado do corpo do despachante, que só foi retirado da favela às 10 horas.Vizinhos relataram que ele estava em seu Golf dirigindo para casa quando foi parado por policiais, que atiraram no carro. Ele estaria ouvindo música em alto volume e, por isso, não teria ouvido a ordem para parar. O comandante do 22º batalhão disse que não sabe em que circustâncas ele foi atingido. Carlos Carrijo prometeu que o caso será investigado e os PMs envolvidos poderão ser punidos.Após a operação de ontem, um traficante foi preso com um revólver calibre 38 e um fuzil 7.62. Segundo a PM, a Nova Holanda é dominada pela facção criminosa Comando Vermelho. Em favelas vizinhas que também fazem parte do Complexo da Maré quem controla o comércio de drogas é o grupo rival Terceiro Comando.Ao comentar sobre o tiroteio, o comandante da Polícia Militar, coronel Francisco Braz, disse que "não há conflito." "Na verdade, nós estamos sempre atuando nas comunidades carentes para livrá-las dos marginais infiltrados. Ontem (anteontem), foi mais uma ação dessas em que nós atuamos e infelizmente tivemos um policial vitimado. Em combate, nessas dificuldades, pode acontecer isso. Os marginais também foram vitimados", afirmou Braz.

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