Polícia ouve hoje pastores que atuariam em golpe

Religiosos poderão ser indiciados por até três crimes

Rubens Santos, GOIÂNIA, O Estadao de S.Paulo

10 Agosto 2009 | 00h00

Dezoito pastores evangélicos foram intimados pela Polícia Civil de Goiás a prestar depoimento hoje no inquérito que investiga um suposto esquema de golpe da pirâmide denominado Elite Activity. De acordo com o delegado Waldir Soares de Oliveira, titular do 22° DP da Vila Mutirão, em Goiânia, os religiosos estariam envolvidos no golpe, que entrou no País no ano passado. O esquema estaria sendo alimentado com dinheiro dos fiéis das igrejas às quais pertencem. "O esquema atraiu cerca de mil pessoas em Goiás, outras 72 mil em sete Estados e tem ramificações entre brasileiros que moram nos Estados Unidos", afirmou o delegado. Waldir Soares garante que todos os religiosos que serão ouvidos poderão ser indiciados por formação de quadrilha, estelionato e crime contra a economia popular. Ele afirmou que a Policia Federal e a Interpol também foram acionadas na semana passada. Isso porque, além da comprovação de ramificações no Brasil, a Elite, empresa que supostamente administra a pirâmide, tem sede em Austin (Texas), de onde teria migrado para o Brasil. Até agora, de acordo com a polícia, a maioria dos lesados no Estado estaria concentrada em Goiânia. O delegado explicou que os religiosos estão vinculados a denominações como Luz Para os Povos, entre outras. Mas isentou as igrejas de responsabilidades. As lideranças das igrejas não foram encontradas para comentar o caso. O advogado Eliton Matinho, no entanto, disse a um jornal local que a Igreja Luz para os Povos não está envolvida. "Somos 40 igrejas em Goiânia e 30 mil membros. A polícia deveria ser serena e não condenar todos os membros." Ele também disse esperar uma retratação da polícia. SITE Consta no inquérito que o suposto esquema usa trechos da Bíblia para enganar as pessoas: "Dai, e dar-se-vos-á; boa medida, recalcada, sacudida, transbordante, generosamente vos darão", está escrito em Lucas, capítulo 6, versículo 12. No site www.eliteactivity.com.br, os organizadores do Elite Activity garantem que o sistema de doações não é uma pirâmide, mas "uma crença nascida da tentativa de partilhar". Isso significa, segundo a Elite, o direito do indivíduo de dar e receber doações. O direito à "abundância" da Elite resultou, na semana passada, nas prisões, em flagrante, do pastor Elias Pereira de Deus e do diácono Geraldo Alves de Carvalho. A policia afirma que eles foram apontados por testemunhas como líderes da pirâmide. Eles atuavam, segundo a polícia, num dos bairros mais pobres de Goiânia, o Jardim Primavera. Segundo os levantamentos policiais, os dois teriam convencido mais de 300 pessoas a aderir ao esquema no bairro. Pelo sistema de "doações" de R$ 200 em dinheiro, cada participante deveria convidar mais duas pessoas que, por sua vez, chamariam outras duas - e assim por diante. Na multiplicação da base, cada cabeça receberia oito vezes o valor investido graças ao "círculo de abundância". O açougueiro Weder Rodrigues Cordeiro disse à policia, na sexta-feira, que entrou com R$ 200, mas recebeu de volta o valor investido tão logo percebeu que se tratava de um golpe. Weder nega envolvimento no caso. "Não tenho nada com isso", disse. No entanto, ele está sendo apontado como encarregado de dar palestras nas igrejas sobre o esquema. TAXA DE ?MANUTENÇÃO? Fora o investimento inicial, cada pessoa que aderia ao esquema era obrigada a pagar taxa de manutenção do programa "que controla e gerencia o sistema" da Elite Activity, por meio de cartão de crédito, o equivalente a US$ 16 (cerca de R$ 30), como indica o site, em português, do Elite Activity. O sistema, em ciclos, também permitiria a cada membro mudanças de ciclos de doações, num total de sete, com valores variando entre R$ 100 e R$ 500. "Para cada uma das sete doações feitas há oito doações a receber", indica o site. "A promessa era de que, no fim de cada ciclo, o participante receberia até R$ 568 mil", disse o delegado.

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