Polícia prende 4 sobreviventes da chacina no Rio

Quatro dos doze sobreviventes da chacinado Morro do Zinco foram presos e autuados por associação aotráfico, após deporem na polícia sobre os assassinatos dos seisjovens ocorridos na madrugada de ontem.O grupo, de Macaé, no norte fluminense, estava numa vane ia a uma festa promovida pela facção Terceiro Comando, noMorro de São Carlos, na capital, mas se perdeu e foi rendido porcriminosos do Morro da Mineira, que é vizinho e dominado peloComando Vermelho, bando rival. Os seis foram mortos a tiros,após um "julgamento" no qual quem tinha "cara de bandido" foiexecutado.Segundo o secretário estadual de Segurança Pública, oex-governador Anthony Garotinho, todos os integrantes do grupo,inclusive os seis rapazes que foram mortos, tinham envolvimentocom o tráfico. Os sobreviventes Wanderson da Silva, CristianoGusmão Santiago, Jonas de Oliveira Zaror e um adolescente de 16anos foram presos após prestarem depoimento da Delegacia deRepressão a Entorpecentes (DRE), no Rio.Para a Polícia, todos sabiam que iam a uma festapromovida por traficantes, o que caracteriza o crime pelo qualforam autuados. Só o motorista da van, cujo nome não foidivulgado, não foi indiciado, porque fora apenas contratado parafazer uma viagem, sem saber o propósito.Os demais sobreviventes ainda estão sendo procurados. De acordo com Garotinho, os jovens tinham passagem pela polícia como usuários de drogas, mas as investigaçõesdescobriram que eles eram também traficantes. ?Eles são dogrupo do Rupinol (Rogério Mosqueira), chefe do tráfico daAroeira (localidade de Macaé), que está preso no complexopenitenciário de Bangu e é do Terceiro Comando", disse."Eram receptadores em Aroeira de drogas provenientes deoutros lugares, provavelmente do Rio", afirmou.O delegado da 165ª Delegacia Policial (Macaé), JorgeVeloso, porém, disse acreditar que os jovens mortos não eramtraficantes, apenas usuários de drogas. Parentes confirmaram queos rapazes estavam envolvidos com o uso de entorpecentes e quehaviam sido aliciados por criminosos do Rio. Veloso disse quenão foram encontrados armas nem drogas na van.A van teria entrado no Morro da Mineira porque o taxistaque mostraria o caminho até o São Carlos dirigiu muito rápido e,por isso, o condutor da van - que recebera R$ 320 pelo serviço -não conseguiu segui-lo. A van foi rapidamente notada pelostraficantes, que a atacaram e subiram com os passageiros até oZinco.Horror - Segundo o delegado, depois de descobrir que avan era de Macaé - onde, segundo a polícia, 90% das favelas sãodominadas pelo Terceiro Comando -, os traficantes disseram quesó morreria quem não provasse ser trabalhador, através dedocumentos ou de marcas nas mãos.Mas, muito alterados pelas drogas, eles passaram aescolher as vítimas aleatoriamente. "Eles disseram: ´Quem fortrabalhador vai sobreviver´. Mas depois a seleção passou a sersubjetiva. Simplesmente olhavam e gritavam: ´Você tem cara debandido, vai morrer´", contou o delegado.Veloso acrescentou que, segundo os sobreviventes, ostraficantes executaram os negros primeiro. Outro "critério"seria a existência de tatuagens. Os rapazes foram espancados etorturados. Em seguida, os criminosos cometeram osassassinatos.Os corpos de Jansen Silva, de 18 anos, Hamilton deFreitas Caldas Júnior, de 19, e Marlei de Souza, de 16, foramenterrados ontem em cemitérios de Macaé. As famílias lamentavamas perdas, mas não escondiam que eles tinham algum envolvimentocom drogas, nem que foram ao Rio especialmente para a festa doscriminosos. "Marlei disse que ia à festa de um amigo no Rio",contou um primo do garoto, que não quis se identificar. O rapaznão trabalhava nem estudava e costumava freqüentar bailes funkna capital.A dona de casa Solange Silva, de 43 anos, mãe de Jansen,disse que o filho "tinha cabeça fraca" e era induzido pelas máscompanhias. "Meu filho não tinha maldade. Ele foi escondidopara o baile, porque, se tivesse pedido permissão a mim, eu nãodaria." O funcionário público Gilson Chaves, de 37 anos, tio deLeonardo de Almeida Carvalho, de 18 anos - enterrado ontem, assim como Carlos Antônio Rocha, também de 18, e Glauter daSilva Araújo, de 19, acredita que os jovens de Macaé estãosendo aliciados por traficantes do Rio."Estamos perdendo nossos filhos, e a polícia não faznada. Quando você é jovem, não tem medo, quer a adrenalina, operigo." Há três anos, a mãe de Leonardo, a funcionária públicaMaria da Penha Ribeiro de Almeida, de 44 anos, perdeu outrofilho na mesma idade e em circunstâncias parecidas.

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