Polícia prende mais um suspeito de matar desembargador

Depois de prender, no início da manhã desta Sexta-feira, 4, um dos suspeitos de ter matado o desembargador José Maria de Mello Porto, do Tribunal Regional do Trabalho do Rio, na noite de quinta-feira, 3, a polícia prendeu um segundo acusado e identificou um terceiro, à tarde. O primeiro deles, Adilson Gomes de Almeida, 27 anos, vulgo Romarinho, foi preso na Vila do João, em Bonsucesso. O tráfico dessa favela é controlado pela mesma facção criminosa do Parque Alegria (ADA). Com ele foram apreendidos uma metralhadora, munição e drogas. Segundo Torres, a polícia tem informações de que Romarinho estava no bando que matou o juiz. O outro suspeito, cuja identidade ainda não foi divulgada, foi detido à tarde no Parque Alegria, onde dois carros suspeitos também foram apreendidos.Um terceiro suspeito, o delegado José Renato Torres, já foi identificado com nome, foto e endereço. Ele era o alvo da operação realizada na madrugada e das incursões feitas no Parque Alegria. O delegado não quis revelar a identidade dele e informou que a polícia também busca um bandido que teria sido baleado pelo desembargador e que teria pedido socorro numa farmácia da favela. Para Torres, é muito pequena a hipótese de crime encomendado. "O foco foi ele porque saiu do carro. Se aparecerem novos fatos que apontem em outra direção, vamos investigar", disse o delegado, que admitiu que esse tipo de crime é freqüente na região onde morreu o desembargador. Segundo ele, traficantes costumam planejar roubo de automóveis para compensar prejuízos na venda de drogas. O crimeMello Porto foi morto com sete tiros depois de reagir a pelo menos oito homens armados na Avenida Brasil, na zona norte do Rio, por volta das 19h30. A principal linha de investigação da polícia é de que o magistrado foi vítima de latrocínio e só foi morto porque reagiu. Ele desceu do carro, engatilhou a pistola Glock calibre 380 que sempre portava e gritou: "Eu sou o juiz Mello Porto!". Em seguida, os bandidos dispararam contra ele. O desembargador foi atingido por sete tiros na cabeça.A cena foi descrita pelo procurador federal aposentado José Domingos Teixeira Neto, que estava ao volante do automóvel Audi interceptado pelos bandidos. Ele contou que também estava armado, mas não teve tempo de sacar a arma, que estava sob o tapete do carro. Quando o desembargador tornou-se alvo dos bandidos, que estavam divididos em dois carros, ele também saiu e abrigou-se atrás do veículo. Segundo o procurador, Mello Porto atirou em um dos bandidos, que fugiram sem o carro mas levaram a pistola do desembargador."O juiz Mello Porto sempre disse o seguinte: me levam, mas não levam minha dignidade. É um herói. Morreu com a arma dele na mão, cercado por seis meliantes, seis covardes", disse Teixeira Neto, que costumava dar carona ao desembargador para a Barra da Tijuca, onde moravam. Poucas horas depois, a polícia recebeu informações de que o assalto foi promovido por bandidos ligados a traficantes da favela Parque União, próxima ao local do crime. "Com certeza foi um assalto. Não há outra possibilidade", disse Teixeira Neto, que contou ter visto um bandido quebrar, com um fuzil, o vidro de outro carro. Ele se diz incapaz de reconhecer os bandidos. "Eles deixaram impressões digitais no carro todo. O que me abordou meteu a mão para arrombar a porta, a mão dele está toda lá". O automóvel foi recolhido para a perícia técnica. Roubo frustradoPara o chefe de Polícia Civil do Rio, delegado Ricardo Hallack, o juiz foi mesmo vítima de roubo frustrado seguido de morte. Ele designou para a coordenação das investigações o sub-chefe de polícia, o delegado José Renato Torres, que participou de uma operação da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil na favela Parque Alegria ainda na madrugada de sexta.Sem ameaçasO presidente do TRT-RJ, desembargador Ivan Dias Rodrigues Alves, disse que Mello Porto não informou ter recebido ameaças recentemente ou solicitou segurança especial. Alves contou que, na semana passada, um desembargador do TRT recebeu ameaças por causa das alterações na estrutura administrativa do tribunal que estão em curso, mas afastou qualquer relação de Mello Porto com o assunto. Ele pediu à Secretaria de Segurança do Rio agilidade na investigação.O corpo de Mello Porto foi velado nesta sexta, 4, na sede do TRT-RJ, no centro do Rio. Às 14 horas, o cortejo seguiu para o Cemitério São João Batista, onde o sepultamento aconteceu no final da tarde. O ex-presidente Fernando Collor de Mello, primo do desembargador, viajou ao Rio para a cerimônia. Mello Porto também era primo do ministro Marco Aurélio de Mello, presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Passaram pelo velório, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Sergio Cavallieri Filho, o presidente do PDT, Carlos Lupi, o ex-deputado e presidente do Vasco, Eurico Miranda, e o apresentador de TV Wagner Montes. A viúva e os dois filhos adolescentes do desembargador foram mantidos afastados da imprensa. Segundo o deputado Francisco Dornelles (PP-RJ), que também esteve no velório, Mello Porto tinha aspirações políticas e chegou a cogitar candidatar-se este ano à Câmara dos Deputados pelo PP. Emocionado durante o velório, Teixeira Neto queixou-se da imprensa por relembrar investigações como a da CPI do Judiciário, em 1999, que tiveram Mello Porto como alvo por acusações de irregularidades em sua gestão na presidência do TRT-RJ, entre 1992 e 1994, como nepotismo, fraude em licitações e autopromoção. "Em vez de procurar o motivo pelo qual ele foi morto, a imprensa procura a vida pregressa de um cidadão de bem, que passou por tudo o que passou e que estava aí ajudando ao próximo. Ninguém nesse País dava tanto cartão seu particular para o jovem, para a gente humilde, para o trabalhador".

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