Polícia reconstitui chacina que deixou 15 mortos em Guaíra

Repórter relata o clima na cidade fronteiriça com o Paraguai e diz que expectativa é pela prisão dos suspeitos

Bruno Paes Manso, enviado especial de O Estado de S. Paulo,

24 de setembro de 2008 | 13h35

A polícia faz nesta quarta-feira, 22, a reconstituição da chacina que deixou 15 mortos em Guaíra, cidade da fronteira entre o Paraná e o Paraguai. Luana*, de 16 anos, viúva de uma das vítimas, relatou aos policiais o que havia acontecido no dia do crime. Com a filha de 2 anos em uma mão e um menino de 9 anos na outra, ela andou pelos brejos próximos ao Lago de Itaipu, em Guaíra, durante uma hora e meia até encontrar um carro da Polícia Militar na tarde de segunda-feira, 22.  Veja também:Ouça o relato do repórter Bruno Paes Manso  Dobram ações do tráfico na fronteira   Decretada prisão de três por chacina   Rigor em Foz tornou Guaíra principal porta para maconha    Todas as notícias sobre a chacina    As buscas pelos três acusados da chacina continuam nesta quarta e contam com o apoio de autoridades do Paraguai. A expectativa é de que Jair Correia, de 52 anos, seu filho Cleisson Correia, de 20, e de Ademar Fernando Luiz, de 26, acusados de participação na chacina que deixou 15 mortos e 8 feridos, sejam presos em breve. A suspeita é de que eles tenham fugido para o Paraguai e, por isso, as autoridades do país forma acionadas. Foto: Associated PressQuinze pessoas foram mortas e oito ficaram feridas na chacina em Guaíra, na fronteira com o Paraguai  O clima na cidade é de expectativa para a prisão dos suspeitos da chacina e de revolta entre os familiares das vítimas. Familiares de uma vítima culpam alguns mortos como responsáveis pela chacina, relata o repórter Bruno Paes Manso. Segundo ele, os velórios estavam programados para acontecer em um ginásio, mas o princípio de um tumulto fez com que os velórios fossem separados. A maior parte dos enterros aconteceu na manhã desta quarta. Confira a entrevista com Luana* Antes de conseguir encontrar policiais para pedir ajuda, ela havia ficado quase cinco horas sob a mira de armas. O marido foi morto na chacina. Ele é apontado pela polícia como um pequeno traficante que transportava a droga de Guaíra até o Rio. Luana diz desconhecer a profissão do marido e disse que nunca o viu com drogas ou armas. Protegida pela polícia da cidade e esperando o contato de familiares, ela deu detalhes da maior chacina da história do Paraná. Por que você foi até a chácara?Meu marido era muito amigo do Polaco (Jussimar Marques Soares). Tinha uma roupa dele lá. Fui buscar pra lavar. Fomos entrando, quando vimos um homem encapuzado. Achamos que era brincadeira de alguém. Só nos demos conta quando nos renderam e nos levaram para a sala. O que os bandidos diziam para vocês?Deram coronhadas na minha cabeça e na do meu marido. Colocaram a gente de joelhos na sala. Primeiro, diziam que era para a gente não ter medo, que não éramos nós que devíamos e que eles queriam outras pessoas. Só que eles foram ficando mais violentos. Um deles perguntou para o meu marido se ele era homem. Meu marido disse que era e o bandido tirou o capuz, mostrou o rosto e atirou no filho do Polaco (Mizael Soares). Ele ficou agonizando ao nosso lado até morrer. Eles queriam o Polaco, o Nel (Manoel Pascoal da Silva) e o Zaqueu (Zaqueu Erculano). Quando o Polaco chegou?Um pouco depois. A gente viu. Ele chegou e tentou atropelar um deles com o carro. Não conseguiu. Saiu do carro e tentou fugir. Atiraram nas duas pernas dele para que não fugisse. Fizeram ele ligar para o Nel e o Zaqueu. O que obrigaram o Polaco a falar?O Polaco disse: "Vem cá para a gente acertar o negócio. Estou com o dinheiro aqui." Aí quem ia chegando eles iam levando para o paiol e matando. Nós que estávamos na casa íamos ser os últimos. Isso só não aconteceu porque meu marido pegou minha filha no colo. Um deles não gostou e atirou. A bala pegou de raspão na menina e nele. Ele e o Claudiomar pularam para cima dos dois tentando desarmá-los. Nisso, peguei na mão das crianças e fugi.  * Nome fictício

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