Policiais são denunciados por seqüestro e achaques

Eles ameaçavam forjar flagrante de tráfico se não recebessem R$ 50 mil

Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

19 de dezembro de 2007 | 00h00

Uma quadrilha formada por policiais civis e militares e informantes foi denunciada anteontem pelo Ministério Público Estadual (MPE) por seqüestro e por achaques a um casal. Durante um ano, o grupo ameaçou forjar prisões em flagrante, sob a acusação de tráfico de drogas. O alvo do bando, segundo os promotores, era Márcio da Costa, o Merenda, "conhecido nos meios policiais como usuário e traficante de drogas". Seis acusados - dois policiais militares, um investigador, um ex-policial e dois comerciantes - foram presos em flagrante pela Corregedoria da Polícia Militar. Eles se faziam passar por policiais do Departamento Estadual de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) para amedrontar ainda mais as vítimas.A denúncia do MPE contra os acusados foi apresentada à 24ª Vara Criminal. As investigações começaram em novembro, quando a mulher de Merenda, Renata dos Santos Rosetti, procurou a corregedoria, pois ela e o marido estavam cansados de ser vítimas do grupo, que agia desde outubro de 2006. O ex-policial Pérsio Phloervídio Pedroso, o sargento Jefferson Luiz Antônio Claro Fausto e um terceiro integrante do bando ainda não identificado chegaram, às 23h30, a uma casa na Rua João Cabanilla, no Jaraguá, zona oeste de São Paulo. Estavam atrás de Merenda."Aqui é o Denarc, vamos fazer uma busca, que a casa caiu", disseram os policiais. Como não acharam nada, os acusados teriam dito que iam forjar um flagrante de tráfico contra Merenda, se ele não desse R$ 50 mil. Para garantir o pagamento, seqüestraram a vítima, que foi colocada num Palio. Pelo celular, o grupo manteve contato com Renata para que ela reunisse o dinheiro. Ela contou que só conseguiu R$ 8.100, entregues como resgate do marido na manhã seguinte.SEQÜÊNCIASegundo o MPE, em uma segunda extorsão, o grupo se apoderou de um Palio de Merenda e exigiu R$ 10 mil para devolvê-lo. O dinheiro foi pago. Em outra ocasião, tomaram R$ 25 mil.Merenda foi novamente abordado pelos policiais em outubro. O sargento, segundo a acusação, abordou a vítima quando saía de casa. Exigiu que Merenda lhe passasse o número de telefone, mas recebeu um número errado. No dia seguinte, o policial voltou e exigiu o número verdadeiro. "A partir disso, a vítima começou a receber telefonemas ameaçadores", diz a denúncia do MPE.O grupo exigiu R$ 50 mil para que não se forjasse um flagrante de tráfico de drogas contra Merenda. No dia 21 de novembro, Renata decidiu procurar a corregedoria. Disse que policiais fardados estavam usando viaturas da PM para exigir dinheiro. Naquele dia, os achacadores haviam telefonado para o marido e marcado um encontro às 12 horas no Habib?s da Avenida General Edgar Facó, em Pirituba, zona oeste.Os policiais da corregedoria foram até lá e presenciaram o encontro. O ex-policial Pedroso, o sargento Fausto e o soldado Ednilson Mariano chegaram em um Palio. Disseram à vítima que ela tinha "uma dívida" com o grupo. À noite, os corregedores foram à casa de Merenda esperar os policiais. Enquanto conversavam com ele, um dos acusados telefonou e exigiu que, no dia 27, a vítima fosse à mesma loja do Habib?s e entregasse os R$ 50 mil.No dia 27, Merenda foi entregar o dinheiro, acompanhado pelos homens da corregedoria comandados pelo tenente Giampaolo Donato Giaquinto. O ex-policial Pedroso chegou à lanchonete com o investigador Geisson Pereira Ramos e os comerciantes Ricardo Batista Tinoco e Raul Manoel Mendonça. Pedroso disse que eles estavam ali para garantir o pagamento.Merenda apanhou o dinheiro e o entregou a Pedroso. Nesse momento, homens da corregedoria lhe deram voz de prisão. O ex-policial sacou a arma e atirou. Os corregedores reagiram e acertaram seis tiros no acusado. Os outros três foram presos sem reagir - eles alegaram inocência e disseram que não sabiam o que Pedroso ia fazer na lanchonete. Mas, segundo o MPE, eles também haviam ido à casa de Merenda com os demais acusados. Os PMs foram presos no mesmo dia. A corregedoria apura a participação de outros policiais.

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