Policiais terão de explicar chacina acobertada

Ex-diretores do Denarc vão depor sobre inquérito que, segundo o MPE, livrou investigador e informante, autores de crime em Porto Feliz, em 2003

Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

14 Julho 2009 | 00h00

A Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo vai convocar para depoimento os ex-diretores do Departamento Estadual de Investigações Sobre Narcóticos (Denarc) Ivaney Cayres de Souza, Everardo Tanganelli Júnior e Pascoal Ditura, em inquérito que investiga uma chacina em Porto Feliz, no interior de São Paulo. Os corregedores querem entender como foi "criada uma história" para inocentar um investigador e um informante que, segundo a própria Corregedoria e o Ministério Público Estadual (MPE), assassinaram quatro pessoas desarmadas em julho de 2003. O caso começou quando as quatro pessoas morreram em uma ação do Denarc. Na época, o órgão anunciou que eles eram traficantes e teriam atirado primeiro nos policiais. O Denarc ainda anunciou que já estava no rastro da quadrilha e que acabou sendo surpreendido pela reação do grupo. "Foi uma cilada", disse Ivaney Cayres de Souza, então diretor do órgão. Morreram no local o dono da chácara, Edson Serafim Tomás, de 41 anos, sua mulher, Flávia Espíndola de Castro, de 28, a caseira Ilza Pereira da Silva Araújo, de 36, e o adolescente Luís Carlos Lopes da Silva, de 16. Ainda segundo o delegado, o grupo estava sendo investigado por escutas telefônicas havia três meses. "A situação impôs que reagíssemos à altura. Lamentamos as vítimas, como lamentamos o policial ferido. A operação foi legítima." Uma investigação do MPE e da Corregedoria, no entanto, mostrou que tudo não passou de uma farsa para encobrir a execução das vítimas. Eram 7h30 do dia 11 de julho de 2003 quando três policiais sem uniforme e um informante entraram com um mandado de busca na chácara localizada no km 104 da Rodovia Castelo Branco. Um funcionário acabou sendo detido. Segundo testemunhas, o caseiro estranhou a movimentação, pensou que os policiais fossem bandidos e atirou, atingindo a espinha dorsal do investigador Mauro Montanari, de 35 anos, que ficou paraplégico. Segundo o MP, os policiais foram então atrás de vingança. Mataram Luís Carlos, jardineiro do sítio, depois atiraram em Ilza Araújo, mulher do caseiro, que dormia no momento em que os dois invadiram sua casa. Em outra residência dentro da chácara ainda foi assassinado o casal Edson Tomás e Flávia de Castro - apenas duas crianças, na época de 6 e 9 anos, foram poupadas. Em depoimento, as testemunhas disseram que os policiais também atiraram nas paredes para tentar alterar a cena do crime. FRAUDE PROCESSUAL A Corregedoria e o MPE suspeitaram da história após ouvir a versão das crianças e de outras pessoas que passavam pelo local. Depois de vários depoimentos, a chacina no sítio de Porto Feliz foi creditada ao investigador José Virgílio Costa e seu parceiro Sidmar Bianco, ambos presos. Bianco, no entanto, denunciou aos corregedores uma farsa ainda maior. Segundo ele, foram José Virgílio e o informante Pedro Henrique Moreira que assassinaram sumariamente as vítimas, sem chance de defesa, por pura vingança - seu nome só foi envolvido no caso porque colegas do Denarc teriam pedido para ele assumir a responsabilidade, uma vez que ele era chefe dos investigadores. Na casa do informante, a Corregedoria achou armas, munição, colete à prova de balas e manuais de investigação da Polícia Civil. Ele e José Virgílio, que foi expulso da Polícia Civil, respondem às acusações em liberdade. A corregedoria quer ouvir os antigos chefes do Denarc para saber o que eles têm a dizer sobre a suposta fraude processual. Em depoimentos anteriores, Ditura e Ivaney disseram que não estavam no local na hora em que a suposta fraude ocorreu.

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