Policiais terceirizavam achaques

Três homens do Denarc, um PM e dois informantes foram flagrados recebendo propina; delegado é investigado

Bruno Tavares e Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

29 de abril de 2009 | 00h00

Três policiais do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) e um policial militar de São Paulo são acusados de montar um esquema para achacar comerciantes do ramo de suplementos alimentares em Santos, no litoral paulista, e em cidades no interior. Para não ser descoberto, o grupo teria adotado uma estratégia inusitada: terceirizou o recolhimento da propina. Os quatro policiais e dois informantes, presos em flagrante na noite de anteontem após receberem dinheiro de uma vítima, foram indiciados por extorsão de dinheiro e formação de quadrilha.O delegado Paulo Fleury, que até o mês passado comandava a 2ª Delegacia da Divisão de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) do Denarc, também é investigado. No carro usado pelos informantes Anderson Marques e Antonio Carlos Couto, foi encontrada uma pasta com o distintivo da Polícia Civil contendo duas ordens de serviço supostamente assinadas pelo delegado, além de endereços de lojas de suplementos alimentares em Santos e Campinas. "O que dois informantes faziam com documentos internos da polícia?", questionou o promotor Cássio Roberto Conserino, do núcleo de Santos do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). Conserino deve ingressar hoje na Justiça com pedido de prisão dos carcereiros Edilson Aparecido Queiroz, Glauco Robson Alves Barbosa, do agente Uanderson Pereira da Silva e do PM Fábio José Ascenso, além dos dois informantes já detidos. O promotor pretende aprofundar as investigações antes de tomar qualquer providência em relação ao delegado. No ano passado, Fleury foi condenado a 6 anos e 8 meses de prisão por desviar produtos falsificados da Delegacia de Repressão à Pirataria do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic).A primeira denúncia de que policiais estariam achacando lojistas em Santos surgiu na semana passada. O comerciante Erivaldo Bonfim Brandão contou que, há um mês, policiais estiveram em seu estabelecimento, aparentemente em uma fiscalização de rotina. Verificaram a mercadoria e a documentação e, por último, pediram R$ 10 mil, "sob pena de represália". O comerciante diz que por três vezes se recusou a pagar a quantia exigida. Anteontem, porém, Brandão voltou a receber telefonemas dos policiais. O valor cobrado já havia caído para R$ 3 mil. Antes de seguir para o local combinado, um posto de combustíveis na Avenida Ana Costa, em Santos, o comerciante acionou o Gaeco e a Corregedoria da Polícia Civil.PRÉ-DATADOO acerto entre os policiais e a vítima chamou a atenção do promotor e de delegados da Corregedoria pela ousadia. Metade da propina seria paga em dinheiro e o restante, com um cheque pré-datado. "O negócio deles (policiais) era extorquir (dinheiro), não importava como", anotou Conserino. Em depoimento, o informante Anderson Marques confirmou o esquema. Disse que agia a mando dos policiais e que participou de ações parecidas em Sorocaba, Campinas e Taubaté. A tática era sempre a mesma: depois de procurar endereços de lojas de suplementos alimentares na internet, os informantes encomendavam produtos cuja venda é proibida. Depois que os comerciantes caíam na armadilha, os policiais passavam a achacá-los.Vítimas e testemunhas já reconheceram por fotografia o PM e o carcereiro Queiroz. FRASESCássio Roberto ConserinoPromotor do núcleo de Santos do Gaeco"O que dois informantes faziam com documentos internos da polícia?""O negócio deles (policiais) era extorquir (dinheiro), não importava como"

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