Tiago Queiroz
Tiago Queiroz

Policial ferido na perna puxa romaria até Aparecida

'Estado' acompanhou grupo que partiu de Minas Gerais até Aparecida em uma caminhada para agradecer Nossa Senhora Aparecida

Pablo Pereira, O Estado de S. Paulo

08 Outubro 2017 | 03h00

No começo da noite de uma sexta-feira de carnaval, em 1997, ladrões dirigindo um Santana roubado em São Paulo atacaram um carro-forte que trafegava de Itajubá para Pouso Alegre, na altura de Piranguinho, em Minas Gerais. Horas depois, na madrugada de sábado, os assaltantes em fuga foram parados na cidade vizinha de Consolação. No cerco, houve tiroteio e o sargento da PM Mário Luís Ferreira, que estava na barreira policial, foi baleado na perna direita e na altura do quadril. Depois de 20 anos de tratamentos, cirurgias e orações em busca de recuperação, Ferreira, hoje com 55 anos, percorre a pé os cerca de 120 quilômetros entre a Paróquia de São João Batista, de Cachoeira de Minas, também na região do confronto, e o Santuário de Nossa Senhora Aparecida, que completa 300 anos. 

“É um agradecimento”, diz Ferreira durante a caminhada na madrugada enluarada do último dia 7 de setembro. Ele mostra as cicatrizes das balas, lembra da violência do episódio que quase o matou e conta da agonia de sua luta para sobreviver. “Nossa Senhora pôs a mão em mim naquela hora”, declara. Reformado da Polícia Militar em razão das sequelas dos tiros, nos últimos quatro anos Ferreira tem rezado fervorosamente estrada afora, por três dias e duas noites, acompanhando romeiros na travessia de devotos da santa de Aparecida.

Integrante do grupo de fiéis marianos Movimento Terço dos Homens, Ferreira explica que “o Terço busca o resgate dos homens para a religião”. No fresco amanhecer, quando peregrinos aproveitam o clima ameno das manhãs e o feriado da Semana da Pátria para se pôr na estrada em agradecimento de graças recebidas ou a receber, o PM é seguido por um grupo de mais 11 pessoas, todas em peregrinação. Seguem pela Rodovia Presidente Washington Luís, passando perto da cidade de Roseira, depois de terem percorrido mais de 100 quilômetros num trajeto que consome dois pousos – o primeiro deles em Santo Antônio do Pinhal, já no Estado de São Paulo, e o segundo em Moreira César. 

Com eles pela rodovia deserta, entre as fazendas do Vale do Paraíba, segue o casal de jovens namorados Aline Barbosa, de 33 anos, peregrina de segunda viagem, e o empresário Rodrigo Oliveira Costa, de 31, já na sétima jornada. Outros romeiros, mais reservados, abandonaram os calçados fechados e partilham a ladainha da marcha católica com pés machucados, protegidos apenas com meias e chinelos.  

Um dos mais animados é o aposentado João Batista de Souza, de 70 anos, que vive em Cachoeira de Minas, onde é conhecido pela dedicação à romaria. Seu João organiza o grupo, conhece todas as rezas e sabe cada passo da jornada – faz esse exercício de espiritualidade há quase meio século. Ponteando o grupo à beira da SP-065, ele conta que já fez a travessia 45 vezes, algumas vezes duas por ano. “Quem sabe chego a 50 viagens até a mãe Aparecida”, declara. “Antigamente era tudo por estrada de terra. Agora, é quase tudo asfalto, 85% da romaria é por asfalto.” 

Morungaba. Na mesma noite, tentando chegar à Basílica a tempo de participar da missa das 9 horas, outro grupo de romeiros saiu da pousada dos peregrinos às 3 horas. São 22 pessoas. Caminhando desde Morungaba, na região de Campinas, a 210 quilômetros de Moreira César, estavam havia cinco dias na estrada e não escondiam a alegria e a devoção. Antes da partida para os últimos 17 quilômetros até o Santuário, formaram um círculo diante da pousada e rezaram juntos. Mesmo acompanhados por um carro de apoio, muitos fizeram questão de carregar os próprios pertences em mochilas nas costas. No carro, havia água, mantimentos e calçados extras para eventuais necessidades de trocas durante o trajeto. 

Adilson Roberto Poli, de 55 anos, peregrino na sexta viagem, em agradecimento à santa por promessa feita por caso de doença na família, se emociona a cada vez que fala sobre a caminhada. “Agora falta pouco para ver a mãe Aparecida”, diz ele ao parar para beber água no carro de apoio na altura do km 167 da SP-065. Ao lado dele, Vantuir André da Cruz, de 39 anos, casado, 4 filhos, que repete a romaria pela terceira vez, conta que só tem a agradecer à santa. “Eu cheguei em Morungaba só com a roupa do corpo. Só tenho a agradecer”, diz emocionado. 

No grupo, andam ainda Ana Maria Araújo, de 39 anos, que estreia na romaria “para agradecer”, e Maria Aparecida da Cunha, de 59. Carregando a santa no próprio nome, ela revela que a peregrinação é um agradecimento. “Pelo meu filho, que passou na faculdade.”

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