Política externa deve perder caráter ''presidencialista''

Timothy Power, brasilianista

Lucas de Abreu Maia, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2010 | 00h00

O protagonismo do País no cenário mundial está consolidado e não será muito afetado pelo pleito de hoje, acredita Timothy Power, professor de Estudos Brasileiros na Universidade Oxford: "90% da política externa é burocrática e a identidade do presidente não importa muito." Leia trechos da entrevista.

Na política externa, Dilma Rousseff representa a continuidade da linha do governo, mais próxima de Hugo Chávez e dos bolivarianos. José Serra deverá ter relação mais harmônica com os EUA e hostil a regimes como os de Irã e Cuba. O que há de positivo e negativo em cada uma delas?

Imagina-se que Dilma vai continuar com a orientação terceiromundista, começada pelo Lula, e Serra seguiria o molde de Fernando Henrique Cardoso, com relações mais estreitas com a Europa e, principalmente, os EUA. Na verdade, 90% da política externa é burocrática, guiada pelo Itamaraty. A identidade do presidente não importa muito.

Lula intensificou uma diplomacia presidencialista, que FHC praticava de modo mais discreto. No caso de Lula, há quem diga que é mais pelo individualismo com que faz política que por um projeto nacional. O sr. concorda?

Lula é chefe de Estado e não se interessa tanto em ser chefe de governo - delegava detalhes da política doméstica a Dilma e outros ministros. Não o acho personalista. Ele encarna o soft power do Brasil, que deriva não só do seu tamanho, mas da diversidade étnica, inclusão social, posição pacífica em conflitos, etc.

O País perde prestígio com a eleição de um presidente sem carisma, como Dilma ou Serra?

Chamo Lula de Bono (vocalista da banda U2) de barba. É uma estrela de rock. Nem Serra nem Dilma têm isso. Vai haver uma "despresidencialização" da política externa. Perde-se isso, mas sobram muitas armas, como as conquistas recentes da Olimpíada e da Copa. Há vitórias que não têm a ver com o Lula, mas com o suor dos diplomatas brasileiros, que são talentosos.

Como EUA, União Europeia e América Latina receberão a eleição de Serra ou Dilma?

Observadores econômicos veem pouca diferença: eles são 100% comprometidos com as linhas gerais da política macroeconômica. Obviamente que, se Serra ganhasse, haveria pouco entusiasmo em Quito, Caracas, La Paz. Lula tem relações calorosas com vizinhos controversos, tipo Morales, Chávez e Correa. Se eleita, Dilma precisaria do Lula mais na relação com esses vizinhos que com Paris, Londres e Washington.

Esta é a quinta eleição em que PT e PSDB se enfrentam. Muitos entendem que se consolida um modelo de bipartidarismo.

Há uma esquizofrenia no sistema partidário. PT e PSDB têm o duopólio dos votos presidenciais. No Parlamento, contudo, não se tem lógica bipartidária. São duas coalizões, capitaneadas pelo PT e pelo PSDB.

O cientista político André Singer comparou o governo Lula ao de Roosevelt nos EUA, com o New Deal, por criar um novo consenso no eleitorado em torno da questão social. O sr. concorda?

Em termos. O New Deal construiu uma base partidária para os Democratas. Já o lulismo está consolidando uma base mais personalista do Lula, e não do PT. O partido não teve grandes ganhos nesses oito anos.

A eleição contribui para o fortalecimento das instituições?

A consolidação da democracia ficou evidente antes, com a alternância entre Fernando Henrique e Lula. Não se pode falar na erradicação do populismo na América Latina. Mas os países que têm menos espaço para isso são Chile, Uruguai e Brasil.

QUEM É

TIMOTHY POWER

PROFESSOR DA UNIVERSIDADE OXFORD, NA INGLATERRA

Diretor do Centro de América Latina da Universidade Oxford, já foi presidente da Associação de Estudos Brasileiros e é considerado um dos principais pesquisadores do País no exterior. Lançará em 2011, com Cesar Zucco, o livro O Congresso por Ele Mesmo: Autopercepções da Classe Política Brasileira.

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