Política externa e Previdência São maiores diferenças

Os temas política externa e reforma previdenciária colocaram em lados opostos os presidentes do PSDB e do PT no debate de ontem, promovido pelo Estado. Sérgio Guerra e José Eduardo Dutra também mostraram posições convergentes, como nos elogios à política social do governo.

, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2010 | 00h00

O tucano criticou o governo por não ter feito uma reforma na Previdência. Já o petista disse que as iniciativas nesse sentido acabam provocando a aposentadoria precoce dos que temem ser atingidos. Ele defendeu "ajustes pontuais" e ressaltou que não está nos planos do PT propor uma reforma no setor caso Dilma Rousseff vença as eleições.

Para o tucano, o Brasil comete "desvios de conduta" ao não condenar o desrespeito aos direitos humanos em países como Cuba e Irã. Guerra também criticou a proximidade entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez.

O petista respondeu que, no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, não houve condenação a violações de direitos humanos em Cuba, embora elas já existissem. Para Dutra, os resultados da política externa se mostram na redução da concentração das exportações para os Estados Unidos, a União Europeia e o Japão.

Previdência

Dutra: Toda vez que se fala em reforma da Previdência, há uma corrida às aposentadorias que faz com que o problema se agrave. Isso acaba gerando problemas maiores do que se você se propuser a fazer algumas correções pontuais. Por isso, não está no nosso programa a proposição de uma reforma previdenciária.

Guerra: O que o Dutra está dizendo é que o governo da ex-ministra Dilma não vai fazer reforma previdenciária, nem reforma tributária, nem política, porque todas elas implicam em contrariedade a setores afetados. As reformas têm de ser construídas por lideranças fortes, que tenham o respaldo do País e que produzam entendimento amplo no Congresso. Não podemos é continuar a governar com medidas provisórias.

O tripé da economia

Dutra: O senador Sérgio Guerra disse, em entrevista à Veja, que vai mudar o câmbio e os juros. Eu queria saber em que direção. Temos dito que vamos manter o câmbio flutuante.

Guerra: Querem saber o que vamos fazer com os juros, se vamos manter esse tripé? Claro que vamos, nós é que inventamos isso. Criamos essa política econômica que está aí e nos orgulhamos dela. Mas é evidente que queremos juros menores, câmbio melhor para os exportadores, fazer uma política fiscal mais responsável.

Política externa

Dutra: Em primeiro lugar, quero registrar que o Serra falou que ia acabar com o Mercosul, depois disse que não era bem assim. Muitas vezes, tem se criticado nossa política externa citando o exemplo de Cuba, do Irã, quando, na verdade, a tradição da política externa implementada pelo presidente Lula sempre foi a de não ingerência nas questões internas dos países. O governo anterior nunca fez nenhuma declaração a respeito de violação de direitos humanos em Cuba, embora saibamos que também havia naquela ocasião. O efeito principal da política externa é na economia, nas relações comerciais entre os diversos países. Dizia-se que, se a gente não embarcasse na Alca, seria uma tragédia para o Brasil. Hoje, a Alca já foi sepultada. E qual é o resultado de nossa política externa? Até 2002, 60% das exportações brasileiras eram para a União Europeia, Estados Unidos e Japão. Hoje, Estados Unidos, União Europeia e Japão representam menos de 40%. Tivemos uma diversificação e isso propiciou um desempenho melhor durante a crise.

Guerra: Política externa é de Estado e não de governo. E, do ponto de vista desses compromissos, há certos desvios de conduta. Os direitos humanos de esquerda são respeitados, os de direita são desconsiderados. O governo atual vai a Cuba e não vê o desrespeito integral aos direitos humanos. Ao contrário. O presidente compara uma pessoa que está presa por crime de opinião com um marginal aqui de São Paulo. A nossa atitude com o Chávez, a Venezuela, eu entendo que há interesses comerciais, mas daí a uma relação tão sanguínea, tão próxima... E essa história do Irã está muito próxima de uma atitude de total isolamento do presidente. Lá em Honduras, o Brasil exagerou. Colocaram o Zelaya na embaixada e depois não sabiam como levá-lo para casa. O mundo todo ficou de um lado e nós, de outro. Por fim, o livre-comércio no Mercosul não está garantido. É evidente que o Mercosul precisa de uma ampla reforma.

Aparelhamento do Estado

Guerra: Anos atrás, eu estava em Pernambuco e soube de um cara do PT, que nos combatia nas ruas, que foi chamado pelo Serra para ser diretor no Ministério da Saúde. Depois, um outro. Minha reação foi achar que era demais, que o governo seria petista. Conversando com amigos de lá, soube que eram duas pessoas extremamente qualificadas. É assim que trabalhamos, sem preconceito. O Estado não é para ser dividido entre o seu partido. Quem estranha isso é quem tem a cultura do aparelhamento do Estado.

Dutra:. Não há essa história de aparelhamento. Um tipo de expressão usado recorrentemente na imprensa é a tal da república sindical. Diziam que os sindicalistas haviam tomado conta da Petrobrás. Mas, dos 5 mil cargos de chefia e gerência, 29 tinham uma origem sindical. A diferença é que, antes, quem tivesse ocupado um cargo no sindicato não seria nem considerado.

Continuidade

Guerra: Nós montamos um projeto que criou as condições reais para que o Brasil se estruturasse e se desenvolvesse, o Plano Real. Até o Plano Real, ora os governos avançavam, ora recuavam diante de um quadro que só tinha uma solução: o equilíbrio fiscal, a construção de uma moeda que pudesse suportar o desenvolvimento do País. O reconhecimento dos méritos do governo atual deve ser feito. Nos argumentos centrais que justificam esse reconhecimento está a continuação da política econômica.

Dutra: Nós conduzimos o Brasil não simplesmente tendo uma política econômica de continuidade. Não se pode confundir política fiscal e política monetária, em que efetivamente não se tem tanta margem para modificações, com política econômica. Dizia-se que Lula tinha sorte, porque não havia enfrentado em seu governo crises como a do México, da Rússia ou dos países asiáticos. Nós enfrentamos a maior crise desde 1929. Eu era senador em 1999, quando, na primeira crise cambial, o governo enviou para o Congresso o tal Pacote 51, uma série de medidas que seguiam o receituário ortodoxo do FMI de cortes de investimentos e aumento de impostos. No nosso governo, fizemos justamente o contrário: um processo de desoneração tributária em setores fundamentais da economia brasileira.

Embate

SÉRGIO GUERRA

PRESIDENTE DO PSDB

"Esse governo tem sucesso, em grande parte, por ter desenvolvido

a política econômica que nós fixamos, os programas sociais

que nós inventamos e por ter mantido a democracia que nós estimulamos"

JOSÉ EDUARDO DUTRA

PRESIDENTE DO PT

"Quando elegemos Lula, em 2002, dizia-se que ele não poderia ser presidente porque nunca havia administrado sequer um carrinho de pipoca. Hoje, o presidente mais aprovado do Brasil é nosso, é do PT, é o companheiro Luiz Inácio Lula da Silva"

Pelo Twitter, militantes e políticos divulgam debate

O debate promovido ontem pelo Estado com os presidentes do PT e do PSDB teve grande repercussão nas redes sociais. No Twitter, por exemplo, militantes e políticos de ambos os partidos divulgaram o evento em tempo real, como o deputado tucano Gustavo Fruet (PR). Em seu site, o PSDB destacou a atuação de Guerra. Os petistas do Mato Grosso do Sul também divulgaram o evento, retransmitindo as mensagens de Twitter postadas pelo estadão.com.br. A mesma atitude teve o vereador petista Idevaldo Claudino, de Três Lagoas (MS).

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.