Política industrial aproxima candidatos

Nos contatos com empresários, tanto Serra quanto Dilma defendem ativismo oficial no setor; diferenças maiores aparecem na questão fiscal

Julia Duailibi, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2010 | 00h00

Numa eleição na qual o fantasma da ruptura econômica não ronda mais o debate, os dois principais pré-candidatos à Presidência da República, José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), começam a moldar seus discursos para o empresariado reforçando a marca "desenvolvimentista" das suas candidaturas.

Tanto o tucano quanto a petista estiveram com empresários nos últimos dias, em palestras e visitas a entidades de classe em Minas, Rio Grande do Sul, Ceará e Rio Grande do Norte. Nesses contatos, que tendem a aumentar com a proximidade da eleição, e nas conversas que mantém como os empresários e economistas, deram pistas de como será o plano de governo para o setor produtivo e, especificamente, para a indústria.

Nos encontros, Serra e Dilma têm sido uníssonos na defesa de uma política industrial ativa. "Em alguns momentos, havia um constrangimento de discutir a questão, que era vista como coisa anacrônica", lembra o economista Roberto Giannetti da Fonseca, diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp.

Os dois pré-candidatos defendem políticas de desoneração das exportações, de compras governamentais ativa e de incentivo à inovação tecnológica. "Não há diferenças essenciais, mas de apresentação. Há um campo comum entre os dois e divergências na margem", afirma o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, destacando o fato de ambos terem passado pela Unicamp, escola de pensamento econômico tido como mais heterodoxo.

Uma vez que a manutenção do tripé macroeconômico (metas de inflação, ajuste fiscal e câmbio flutuante) não é colocada em questão nesta eleição, as diferenças, segundo empresários e economistas, ficam mais restritas às políticas monetária e fiscal.

"Na maior parte do tempo há convergência entre os dois. Há diferenças sobre a condução da política monetária. Serra é mais rigoroso do ponto de vista fiscal e menos do monetário. É a favor de um câmbio mais competitivo. Isso não significa que vai fazer retrocesso na administração do câmbio, mas que defende um Banco Central mais ativo", completa Giannetti Fonseca.

Produção. O câmbio, ao lado da reforma tributária, está no cerne da discussão sobre política industrial. O tucano avalia que o corte dos gastos com custeio permitirá a queda nos juros, o que depreciará o real e favorecerá a produção nacional. Critica a perda de espaço da indústria nacional para a chinesa e ataca o aumento do déficit em conta corrente.

Em discurso para empresários em Natal, na quinta-feira, Serra disse que "há pouca agressividade na política de comércio exterior" e lamentou a postura adotada pelo Mercosul - crítica que havia feito no começo da semana a empresários mineiros.

Já Dilma tem dito que o Estado foi omisso nos governos anteriores, que faltou planejamento e a ação forte estatal foi um dos remédios para a ajudar o Brasil a passar pela crise internacional. "Fizemos, fazemos e teremos de fazer política industrial, algo que muitos antes de nós consideravam prova de insensatez e atraso", disse há dez dias em palestra a empresários gaúchos. quando afirmou que a "hora da reforma tributária chegou".

"A nossa política industrial é a continuidade do que já acontece", afirma José Eduardo Dutra, presidente do PT. "A grande aposta em Serra é na questão fiscal, tal como ele a geriu em São Paulo", diz o economista Roberto Macedo, próximo ao tucano.

Um dos exemplos usados pela petista é o desenvolvimento da indústria naval por meio da política de compras da Petrobrás. Também cita o PAC e as desonerações promovidas pelo governo, como a do IPI. Serra aponta os investimentos públicos feitos por São Paulo, fala das desonerações do ICMS e do pacote anticrise lançado pelo Estado.

Ponte. Interlocutores no empresariado ajudam os pré-candidatos a propagar as ideias e a combater "mitos". Do lado tucano, Sérgio Amaral (ex-porta-voz de FHC e atual Fiesp), Ivan Zurita (Nestlé) e Paulo Cunha (Ultra). Os tucanos Andrea Matarazzo e Márcio Fortes fazem ponte frequente com empresários.

Dilma mantém boa relação com Marcelo Odebrecht (Odebrecht), Ariovaldo Rocha (sindicato da indústria naval), José Carlos Grubisich (ex-Braskem) e Paulo Godoy (Abdib). O deputado Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda, atua para dar boa entrada à petista no setor.

Enquanto Serra aposta no empresário do agronegócio, com críticas ao câmbio e ao MST, Dilma tem discurso que agrada às grandes empreiteiras, alavancado pelas obras do PAC. Enquete do jornal Valor Econômico, com 142 empresários, há duas semanas, mostrou que 78% votariam em Serra e 9% em Dilma.

Mas o clima de desconfiança que rondou a eleição de 2002, quando Lula assinou a Carta aos Brasileiros prometendo honrar os contratos, se dissipou. Bem diferente também da disputa presidencial de 1989, quando o então presidente da Fiesp Mario Amato disse que empresários sairiam do Brasil se Lula vencesse.

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