Poluição ''''engessa'''' o coração

Estudo mostra que fiscais da CET têm pressão alta e ritmo cardíaco com baixa capacidade de resposta ao stress

Bruno Paes Manso e Fabiane Leite, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2016 | 00h00

Isaias Viana da Silva, de 44 anos, marronzinho da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) há 17, vê a poluição de São Paulo do alto das pontes - e no rosto, nas roupas, quando chega em casa. "Pega" em tudo, como afirma. Ele foi um dos 50 fiscais da CET que participaram de pesquisa do Instituto do Coração de São Paulo, divulgada no ano passado e considerada inovadora por "isolar" os efeitos da poluição sobre o organismo, eliminando variáveis de confusão, como o cigarro e o colesterol. Apesar de Silva estar bem - ainda trabalhando na Marginal do Pinheiros -, os resultados mostram um quadro preocupante: os trabalhadores tiveram aumento da pressão arterial. "À noite, caía menos do que deveria. Havia como um gatilho que mantinha a pressão alta", diz Ubiratan de Paula Santos, médico-assistente de Pneumologia do Incor e autor do estudo. Os marronzinhos tinham também freqüência cardíaca mais alta - fator de risco para enfartes do miocárdio e derrame - e substâncias inflamatórias no organismo que "engrossam" as paredes dos vasos sanguíneos. Além disso, seus corações apresentaram menor capacidade de se adaptar à aceleração causada por um momento de stress, por exemplo. Segundo Santos, é como se o coração estivesse "engessado". A pesquisa continuará, agora com 120 marronzinhos, e vai verificar também alterações genéticas causadas pela poluição. EFEITOS NAS CRIANÇAS As crianças estão entre as principais vítimas dos efeitos da poluição, potencializados pela baixa umidade do ar. Quando a noite chega, a preocupação das mães aumenta - os ataques de tosse e a sensação de mal-estar são mais freqüentes. "Não durmo desde terça-feira", disse, na quinta-feira, a dona de casa Maria Marleide da Silva, enquanto fazia inalação na filha Sabrina, de 2 anos, no Hospital Municipal Infantil Menino Jesus. "Durante toda a noite, ela pede água e não pára de chorar." Por causa do clima na cidade, as consultas em agosto e setembro no hospital estão acima da média dos últimos dez anos. Em anos normais, cerca de 5 mil consultas são feitas. Em meses mais secos, como abril, maio e junho, o total alcança 7 mil. Setembro, que costuma ser um mês com menos movimento, deve terminar com 8 mil atendimentos. "Em 70% dos casos a criança chega ao hospital com infecção respiratória", diz Antônio Carlos Madeira de Arruda, diretor do hospital. Claudiana Gomes Martins, de 25 anos, passou o dia no hospital para fazer as quatro inalações diárias da filha Flávia, de 3 meses. A menina está com bronquite e acorda sufocada à noite. "Ela dorme meia hora e acorda. De manhã, eu corro para cá." Os médicos do Menino Jesus disseram a Maria que a baixa umidade do ar, que dificulta a dispersão dos poluentes, era a causa principal da infecção respiratória de Sabrina, que há dias sofre com febre, vômitos, tosse e tem muito catarro no peito. As vias respiratórias ressecam, assim como o catarro, que se acumula e favorece a formação de culturas de bactérias. "Hoje ela não conseguiu comer. Só bebeu água e ainda assim vomitou." Por determinação do governo, as escolas estaduais trocaram as aulas de educação física ao ar livre por atividades como xadrez e pingue-pongue dentro das salas. "As crianças reclamam um pouco, queriam mesmo é jogar bola né", diz Janice Teixeira Aversani, professora de educação física da Escola Estadual Dr. Alberto Cardoso de Mello Neto, na zona norte. "Acabamos fazendo aulas de dança dentro das salas e torneio de xadrez e damas. Queriam jogar truco também, mas é proibido."

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