Poluição no Tietê encolhe 120 km

Recuo fica abaixo da meta para redução da mancha, de 160 km, mas já permite o renascimento de ecossistemas

Diego Zanchetta e José Maria Tomazela, O Estadao de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 00h00

Dezesseis anos de obras e R$ 3 bilhões depois, o mesmo Rio Tietê que ainda agoniza aos olhos dos paulistanos começa a dar sinais de vida a pouco mais de 100 quilômetros da capital. O mais importante manancial do Estado, castigado todos os dias com mais de 690 toneladas de esgoto na Região Metropolitana, ressurge com espécies de peixes que tinham desaparecido havia três décadas em cidades na região de Sorocaba, onde o nível de oxigênio dobrou entre os anos de 1992 e 2008.O recuo da mancha de poluição do Tietê totaliza 120 quilômetros, segundo técnicos da Companhia de Saneamento Básico do Estado (Sabesp). O número é inferior à meta de 160 km estipulada para o fim de 2007 no início do Projeto Tietê, em 1992, mas ambientalistas comemoram a queda da poluição orgânica e de metais como chumbo e zinco. Foi essa redução que possibilitou a volta da vida ao rio em municípios como Porto Feliz, Cabreúva e Anhembi. Antes, o recuo da mancha anunciado pela Sabesp era contestado como "fato não comprovado cientificamente" por organizações não-governamentais e especialistas. Nas análises de amostras coletadas no início do ano no bairro Parque das Monções, em Porto Feliz, a 110 km da capital, a entidade SOS Mata Atlântica constatou que o nível de oxigênio dobrou em relação ao início dos anos 90 - passou de 4 miligramas por litro para 8 mg. A ONG faz coleta em 81 pontos ao longo dos 1.160 km do Tietê, da nascente em Salesópolis, Grande São Paulo, até Ilha Solteira, no extremo oeste paulista, onde ele deságua no Rio Paraná. "Podemos citar duas frentes para o reflexo positivo que permitiu o início da volta de ecossistemas em trechos do Tietê, como o rebaixamento da calha na capital e o combate à poluição industrial. Hoje temos 200 indústrias poluidoras do rio; em 1992, eram 1.160", diz Maria Lúcia Ribeiro, coordenadora do SOS Mata Atlântica.Para o geólogo Ronaldo Malheiros Figueira, do Centro Universitário Santana, o principal mérito do Projeto Tietê é o recuo da mancha de poluição, mas falta uma política articulada entre as mais de 300 prefeituras de cidades margeadas pelo rio. "Não temos, por exemplo, um combate aos pontos de erosão nas cabeceiras da bacia."BONS SINAISNa cidade de Anhembi, por exemplo, a 235 quilômetros da capital, 200 famílias voltaram a viver da pesca no rio. Subindo o Tietê na direção contrária ao curso do rio, em Porto Feliz, tilápias e curimbatás também reapareceram. Nesse trecho, a espuma que revelava lançamentos de poluição industrial no Tietê sumiu há quase um ano, segundo os moradores.Mais 40 quilômetros acima, porém, o esgoto doméstico e a poluição química voltam a ficar visíveis em Pirapora do Bom Jesus. Lá dezenas de famílias garimpam no meio da espuma tóxica, recolhendo placas de alumínio e entulho.Os resultados positivos do último ano do Projeto Tietê são reflexo de intervenções que ocorreram justamente num trecho do rio que ainda não apresenta melhoras - o da capital, onde o nível de oxigênio na água é zero. "Com as estações inauguradas na última década ampliamos o tratamento de esgoto de 4 metros cúbicos por segundo para 11 m³. Com isso, a poluição vem recuando cada vez mais", diz o presidente da Sabesp, Gesner Oliveira. Ele reconhece, no entanto, que muitas obras ainda têm de ser feitas. "Há uma carga residual de poluição carregada por afluentes ao Tietê que precisa ser combatida."A inauguração, em agosto, de um emissário de esgoto entre os bairros de Pinheiros e Vila Leopoldina, na zona oeste, com 7,5 quilômetros de extensão, deve ajudar no processo de recuperação do rio. Até o fim deste semestre, 84 toneladas de esgotos deixarão de ser lançadas diariamente no Rio Pinheiros, um dos principais afluentes do Tietê - em testes, a estação já opera com metade da capacidade. Com a obra, um volume equivalente ao esgoto gerado pela população de Salvador deixará de ser lançado no Tietê. Outra obra citada por especialistas como decisiva para o recuo da mancha, o rebaixamento da calha no trecho de 24,5 km entre o Cebolão, na zona oeste, e a barragem da Penha, na leste, tornou o Tietê 2,5 metros mais fundo. Além de evitar enchentes desde 2002, a intervenção de R$ 688 milhões aumentou a vazão, ajudando a dispersar poluentes. A largura do rio também foi ampliada de 28 para 40 metros. Mas isso não bastou para cumprir uma promessa feita em 2004 pelo governo: a de que em 2008 o Tietê já estaria sendo explorado nesse trecho para navegação.

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