Ponte para o nada liga bar a sinuca

Um dos principais símbolos do desperdício de recursos públicos com obras inacabadas, a ponte sobre o Rio Formiga, na cidade de Paulino Neves, no Maranhão, recebeu um upgrade. Alvo da investigação feita pela Polícia Federal, em 2007, durante a Operação Navalha, o Estado retornou ao local, três anos depois, para constatar que a ponte continua ligando o nada a coisa alguma.

, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

A diferença é que se antes abrigava uma mesa de sinuca sob sua estrutura, a ponte agora tem maior serventia. A estrada continua por chegar, mas o Programa Luz para Todos chegou, levando energia para a região. Isso ajudou o dono da mesa de sinuca, o professor do ensino fundamental Camilo Reis, a "expandir os negócios". Camilo pegou tijolo e cimento e levantou um bar encravado na estrutura do solitário e escandaloso viaduto.

Com a expansão do Programa Luz para Todos para a região, no segundo semestre de 2007, o professor botou lâmpadas debaixo da estrutura, ligou uma geladeira e até caixas de som. O aviso, escrito a giz na janela improvisada de madeira, diz que, ''por enquanto'', só tem cerveja para vender, a R$ 3,50.

''Com a chegada da energia, essa região cresceu muito e deu até para colocar luz aqui embaixo. De vez em quando, de noite, o pessoal vem para cá se divertir, beber um pouco, escutar uma música ou nadar no rio'', diz. ''Mas, me diga, tem notícia da estrada?'', pergunta o professor que dá aulas de matemática no ensino fundamental e de filosofia no ensino médio, nas escolas da região. Ele mora com a família numa casa levantada exatamente ao lado da ponte.

A estrada a que Camilo se refere fazia parte de um projeto de ampliação da Rodovia Translitorânea, a BR-402, que foi negociado pela Construtora Gautama, do empresário Zuleido Veras, com o governo do Maranhão, durante a gestão do então governador José Reinaldo Tavares (20002-2006). Além da estrutura levantada sobre o Rio Formiga, outras três pontes também faziam parte do mesmo lote de obras acertadas com a Gautama, num valor total que gira próximo a R$ 4,5 milhões. Sem que a estrada aparecesse, as quatro pontes sempre ligaram nada com nada e passaram a ter a mata fechada como testemunha de falta de serventia.

Operação Navalha. As obras foram incluídas no lote de negócios considerados suspeitos feitos pela Gautama em várias áreas do governo federal e de administrações estaduais, como a do Maranhão, do Distrito Federal e da Bahia, entre outros, que foram investigados pela Operação Navalha, desencadeada em 17 de maio de 2007 pela PF. A operação prendeu 47 pessoas, inclusive Zuleido Veras e José Reinaldo Tavares.

Todos os investigados foram soltos dias depois. Mas Zuleido viu sua empresa ser considerada inidônea pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e pela Controladoria-Geral da União (CGU), o que a impede de celebrar contratos com o governo federal. O empresário contestou essa decisão e nega seu envolvimento em irregularidades no cumprimento dos contratos que assinou.

No caso específico da ponte sobre o Rio Formiga, a obra custou R$ 1.812.552,52 e sua execução foi sublocada pela Gautama para a Construtora Ipanema. Das quatro pontes, é a que tem o maior custo individual.

Desde as primeiras acusações, Zuleido e o ex-governador José Reinaldo Tavares se defenderam argumentando que as pontes contratadas foram pagas e construídas. De fato, as estruturas estão lá, mas sem qualquer utilidade, exceto as descobertas pelo professor Camilo. A do Rio Formiga está cercada por mato cerrado e fica perto do povoado de Passagem do Lago, perto da chamada região dos Pequenos Lençóis Maranhenses. Para chegar ao local, só depois de percorrer uma duríssima trilha de pedra e areia, durante uma hora e meia a partir da cidade de Barreirinhas. Mesmo assim, isso só é possível graças ao uso de veículos com tração nas quatro rodas, populares na região por conta da intensa procura de turistas por passeios rumo aos Lençóis Maranhenses.

"Estão andando". Sucessor de Tavares no cargo, o ex-governador Jackson Lago chegou a fazer discurso em 2007 anunciando que a construção das pontes correspondia a um adiantamento da obra que seria representada pela expansão da Translitorânea. A promessa não chegou a ser cumprida, até porque Lago acabou perdendo o posto no ano passado para Roseana Sarney, após sua eleição ser impugnada pela Justiça Eleitoral.

Se a ponte sobre o Rio Formiga parece ter garantida sua inutilidade, os habitantes de Paulino Neves têm motivos para ficarem satisfeitos. Em novembro, o governo de Roseana Sarney autorizou a obra de pavimentação da MA-315, num trecho de quase 30 quilômetros, entre Paulino Neves e a cidade vizinha de Tutóia. A assinatura da ordem para o início das obras foi feita pelo secretário de Estado de Infraestrutura, Max Barros.

Para a região, é uma obra de impacto, pleiteada há mais de 40 anos pelo moradores. Basicamente, representará a chegada de uma via de asfalto para Paulino Neves. ''Já vi as obras para o lado de lá e sei que estão andando'', confirma o professor Camilo. ''Mas acho que para cá não vem estrada não'', aposta.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.