População de Caraíbas ainda teme novos tremores de terra

Boa parte dos 300 moradores deixou suas residências após o abalo de 4,9 graus, registrado no domingo

Eduardo Kattah, de O Estado de S. Paulo,

10 de dezembro de 2007 | 18h28

Moradores da comunidade rural de Caraíbas, em Itacarambi, no norte de Minas Gerais, reviveram momentos medo e apreensão com a ocorrência de novos tremores de terra na noite de domingo, 9, e início da manhã desta segunda-feira.  Aécio vai à cidade onde terremoto deixou um mortoTerremoto está entre os 15 maiores já registrados no PaísFesta em povoado vizinho evitou mortes  'Foi um estrondo, como um trovão', diz moradora de cidade atingida por tremor Veja mais fotos da destruição na cidade  Embora boa parte dos cerca de 300 habitantes do distrito tenha deixado suas residências após o abalo de 4,9 graus na escala Richter (que vai de 0 a 9), registrado no início da madrugada de domingo, o medo de novos desabamentos voltou a afligir a população do pequeno povoado - que retornou ao local para buscar pertences ou insistia em permanecer nas casas condenadas. Uma criança de cinco anos morreu e pelo menos seis pessoas ficaram feridas no terremoto mais intenso já registrado na região. "Hoje deu um novo tremor às 6 horas, mas não foi tão forte. Ontem à noite também sentimos novamente. Estamos com medo", disse o trabalhador rural Manuelino Rodrigues da Rocha, de 47 anos, que no final da manhã deixava o povoado em um caminhão com a mulher, os filhos e os objetos pessoais que conseguiu recuperar em meio aos escombros de sua casa - destruída pelo abalo. Bastante emocionada, a família relembrou a madrugada assustadora de domingo e jurava não mais voltar a Caraíbas. "Esses tremores começaram em maio e estão até hoje. Eu estava numa crise que nem dormia. Pressentia que vinha uma coisa pior", comentou em meio ás lágrimas a mulher de Manuelino, Maria das Dores, 41 anos. Caminhando pela residência semidestruída, a aposentada Domingas Fiúza da Mota, 60 anos, não largava o relógio de parede com a imagem de Santa Luzia. Ela atribuiu à fé na santa o fato de sair ilesa do tremor de domingo. Nesta segunda, voltou a se assustar por causa de três pequenos novos tremores. Um levantamento do Corpo de Bombeiros indicou que 95% dos imóveis de Caraíbas estão comprometidos e provavelmente terão de ser demolidos. O coronel Cláudio Teixeira pediu agilidade aos moradores na retirada dos bens ou criação. "Aqui existe risco e as pessoas precisam entender que não podem mais ficar nas casas. Novos abalos e desabamentos podem ocorrer", disse o coronel, alertando que força policial poderá ser usada em caso de resistência na remoção de crianças e adolescentes. Os desabrigados estão sendo levados para creches e espaços provisórios na área urbana de Itacarambi. Vargem Grande A remoção das famílias de Caraíbas, porém, contrasta com o medo que tomou conta da comunidade vizinha de Vargem Grande, também conhecida como Várzea Grande. Na localidade, os abalos sísmicos vêm sendo sentidos desde maio deste ano. "Lá em casa também trincou a parede. Pensei em dormir esta noite debaixo da cama. Precisamos saber se corremos risco também", desabafou a professora Maria José de Souza, 39 anos. Temendo ser vítima de um desabamento, o filho da servente Maria Rosa Gonzaga Silva, de 46 anos, cogitou dormir de capacete. "Passei a noite em claro, mas para onde nós iremos?", questionou. Revolta Os moradores da região também não escondem uma certa revolta com as informações prestadas pelos técnicos do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UnB), que estiveram nas comunidades em outubro e minimizaram as possíveis conseqüências do fenômeno. "O pessoal falou que não era nada, não tinha perigo. Que era mais fácil morrer de seca do que de terremoto. Acalmaram a gente e deu no que deu", reclamou o lavrador José Carlos Cardoso de Jesus, de 37 anos, que também fazia a mudança. "A gente fica indignado, revoltado, porque demorou muito. Não era para esperar morrer gente", reforçou o vereador Sebastião Alves Moreno (DEM), representante da região na Câmara Municipal de Itacarambi. Vítima Familiares da menina de cinco anos que morreu vítima de desabamento provocado pelo tremor de terra disseram nesta segunda que sua identidade foi trocada pela da irmã gêmea no registro de óbito do Hospital Municipal Gerson Dias. Foi a primeira vez que se registrou no País uma morte em decorrência de um terremoto. Jessiane Oliveira da Silva foi o nome divulgado pela Polícia Militar, prefeitura local e hospital. Mas o pai, João Batista da Mota Silva, 31 anos, e a avó da menina, Jesuína Fiúza de Oliveira, 54 anos, afirmaram que quem de fato morreu foi sua irmã gêmea, Jesiqueli Oliveira da Silva. As duas dormiam na mesma cama atingida por um muro durante o tremor. Nesta segunda, a avó remexia nos escombros e lamentava a morte da neta, que foi enterrada na tarde de domingo. "A parede caiu em cima delas, tentamos tirar e achamos a Jesiqueli desmaiada. Quando a colocamos no carro ela não resistiu." Índia da etnia Xacriabá, Jesuína recebeu a visita do governador mineiro Aécio Neves (PSDB), que nesta segunda esteve na comunidade para avaliar os estragos. Ela relatou o episódio da morte da neta e recebeu a promessa de ajuda do governador. O hospital informou que irá investigar a verdadeira identidade da vítima fatal e suspeita que os documentos das irmãs gêmeas possam ter sido trocados. Matéria ampliada às 20h11

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