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População disputa água barrenta na Paraíba

Os moradores da rua Joaquim de Andrade Gaião, no centro de Serra Branca, no sertão do Cariri, na Paraíba, viveram hoje uma cena que se repete há meses, a cada oito dias. Com baldes, eles disputaram um pouco da água barrenta que o carro-pipa bancado pela prefeitura despejou em um tanque comunitário com capacidade para 5 mil litros. A água vem de um barreiro prestes a secar. "Sei que a quantidade não é suficiente e que a qualidade não é boa, mas é o que podemos fazer, é o básico que estamos podendo oferecer para as pessoas" afirmou o prefeito Eduardo Torreão (PSDB).Quem pode, compra uma água melhor de carros-pipa de particulares a R$ 0,30 a lata de 20 litros, mas a maioria depende do poder público. Desde 1999 o município, de 13 mil habitantes, não tem água nas torneiras e está em estado de calamidade pública. Sem água, não tem lavoura. "Aqui não tem um pé de coentro, um pé de milho", informou o prefeito. "O povo vive de teimosia."Sem notíciasA expectativa, de acordo com o prefeito, é quanto à chegada dos caminhões-pipa sob a coordenação do Exército. Até hoje não havia notícias sobre a água e nem sobre o alimento prometidos pelo governo federal há uma semana. "A gente realmente depende dessa assistência, mas queremos ações que gerem emprego e renda", disse o prefeito.Indignado com a falta de ajuda dos governos estadual e federal, Torreão afirmou que de nada adianta decretar calamidade pública se algo não é feito pelo povo. "Estamos nessa situação desde 1999 e nada aconteceu", disse. Na última grande seca no semi-árido (98/99), o município teve 500 trabalhadores alistados nas frentes de trabalho, quando seriam necessárias 2.500 vagas. Até hoje nunca houve um saque na região. "O povo é muito pacato passa fome e sede mas nunca invadiu nem saqueou nada", afirmou Torreão.Sem solidariedadeApesar da situação crítica em que vive a população, Serra Branca não é beneficiada pelo programa federal Comunidade Solidária. O município vive dos recursos do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e ICMS, pois não tem indústria e a seca inviabilizou a atividade agrícola de subsistência.O sertão do Cariri é uma das regiões mais atingidas pela estiagem na Paraíba, onde 120 municípios foram afetados e 83 se encontram em calamidade pública - 30 deles reconhecidos pelo governo. A fome já levou a três saques no Estado. Em São João do Cariri, perto de Serra Branca, a realidade da população é a mesma: falta de água, de comida, de perspectiva. A aposentadoria dos mais velhos ainda é a salvação de muitas famílias.Sem plantioAlberto Maracajá de Morais, de 59 anos, não plantou nada este ano no seu sítio. O açude está seco. No ano passado choveu bem, mas uma praga de ratos destruiu a lavoura de milho, feijão e verduras e levou seu pequeno rebanho à morte, com a contaminação da água. Ele se mantém agora com uma criação de cabras e não tem como pagar um débito bancário de R$ 30 mil. "O governo pode fazer muita cadeia porque todos os produtores daqui estão na mesma situação e não podem pagar", afirmou.Casado, nove filhos, ele está doente e contratou um funcionário, Manoel Clemente de Souza, de 54 anos, para cuidar das cabras. Manoel recebe R$ 100,00 por mês e duas refeições. Depois de muito tempo sem um emprego, está "com o coração na mão" porque se a situação continuar ruim o "seu" Alberto deverá dispensá-lo.Sem cabrasUbaldina Pereira de Araújo, de 64 anos, e o marido Antonio Luiz Filho, de 75, só não passam fome por causa da aposentadoria. Donos do sítio Serrota, no distrito de São Joãozinho, em São João do Cariri, eles tinham uma criação de cabras que também foi dizimada pela praga de ratos do ano passado. Eles têm oito filhos, dois trabalhando.Erinaldo Gomes de Farias, de 22 anos, tem uma pequena propriedade que herdou dos pais, em São João do Cariri, e todo dia aguarda por um tempo melhor. Sem chuva, sem plantio, sua rotina diária é levar as oito cabeças de gado que garantem a sobrevivência da sua família para beber água no Açude Riacho Fundo, a 10 minutos a pé do seu sítio. O açude, que também fornece a água consumida pela família e está secando.Samuel Horácio Valentim, 72 anos, é de Campina Grande, onde a situação é grave mas ainda não tão dramática como no Cariri. Ele tem uma plantação de palmas - que serve de alimento para o gado na falta de pasto - com a qual conta para salvar suas 18 cabeças de gado. O milho e o feijão foram perdidos. "A chuva não veio no tempo certo, choveu e depois parou", disse ele. É a seca verde, fruto da irregularidade das chuvas, que mantém a vegetação verde, mas não é suficiente para a lavoura.

Agencia Estado,

04 de junho de 2001 | 16h47

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