População saqueia mercados em Itajaí

Polícia não conseguiu conter a multidão, que carregou até comida estragada; muitos chegavam a nado ou de bote

Sicilia Vechi, O Estadao de S.Paulo

26 de novembro de 2008 | 00h00

A combinação de fome e desespero proporcionou ontem à tarde, em Itajaí, a cena mais transparente da calamidade em que se encontra a cidade portuária, por causa da enchente. Mais de mil flagelados arrombaram o portão e as portas de um megamercado de 8 mil metros quadrados, no Bairro São Vicente. Levaram tudo o que podiam, incluindo alimentos estragados pela enchente. Foi o terceiro estabelecimento saqueado em menos de 24 horas. Outros dois supermercados, que também estavam fechados, foram arrombados.   Especial: mapa com cidades atingidas e estradas fechadasO secretário de Segurança Pública de Santa Catarina, Ronaldo Benedetti, ordenou reforço policial tão logo recebeu as denúncias sobre saques nas áreas atingidas. Itajaí já tem cerca de 20% de policiais a mais nas ruas e os agentes estão atirando para inutilizar os botes que transportam mercadorias saqueadas.Com água pela cintura, a multidão rompeu no início da tarde o cordão de isolamento formado por 20 policiais militares. Eles cercavam o Maxxi Atacado, da Rede Wal-Mart, desde as 10h30. Mais três tentativas de isolar os portões foram feitas pelos policiais e quase todo o efetivo disponível na cidade foi enviado para o local, mas não se conseguiu mais do que controlar a entrada e a saída dos desalojados. O saque em massa começou às 13 horas e o estoque de alimentos e utensílios do atacado se esgotou por volta das 17 horas.A quase um quilômetro dali, na Avenida Adolfo Konder, o movimento intenso de pessoas carregando sacos e carrinhos de supermercado repletos de mantimentos - alguns quase encobertos pela água da enchente - denunciava a anormalidade da situação. Além dos carrinhos, portas de refrigerador, prateleiras e freezers de sorvetes boiavam completamente cheios de alimentos.Para chegar aos portões, moradores atraídos pela notícia de comida grátis beiravam o descontrole, em barcos, botes infláveis e a nado, sobre pedaços de madeira. Da porta para dentro, nem a escuridão no atacado fazia alguns errarem o caminho até as prateleiras. Os mais solidários as escalavam e lançavam para baixo as caixas ainda fechadas. "Pega leite para mim", gritavam as mulheres embaixo.O atendimento era rápido e o ambiente, tenso. Mais parecia uma feira livre. Em poucas horas, o espelho d?água que alcançava as caixas registradoras estava encoberto por pacotes, produtos perdidos e restos de papelão. Tudo foi aproveitado, dos frios e laticínios em temperatura ambiente a alimentos que estavam submersos ou estragados. O cheiro de comida estragada, apesar de nítido, não inibiu até a venda da carne saqueada em alguns locais.EXPLORAÇÃOOs crimes aconteceram em bairros como o Ressacada, um dos mais atingidos pela enchente. Mas os problemas atingem todo o município. Há filas até em lojas de conveniência de postos de gasolina e muitas pessoas tentam comprar grandes quantidades de alimentos para estocar. Moradores contam que galões de água, que seriam distribuídos para os flagelados, também foram saqueados e são vendidos por até R$ 20. Todos os alimentos também são comprados com ágio e um pão chega a custar R$ 3.

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