Populares disputam coleta de latinhas de alumínio durante festa

A coleta de latinhas de bebida consumida na Esplanada dos Ministérios revelou uma faceta da crise econômica e social relatada pelo presidente Lula da Silva em seu discurso de posse, no plenário do Congresso. Uma grande quantidade de pessoas com emprego ou recém-desempregadas - razoavelmente bem vestidas - passaram a disputar essas embalagens com os sem-teto que tradicionalmente fazem a coleta em diferentes tipos de festa e buscam no comércio da sucata sua fonte de sobrevivência. A doméstica Maria de Fátima Feitosa, por exemplo, teve hoje na Esplanada sua primeira experiência como catadora de latas. "Eu pensei que não tinha tanta gente assim (catando), e desde as 10h não enchi nem dois sacos ainda", queixou-se Maria de Fátima, depois de seis horas e meia perambulando pelos gramados da Esplanada. Ela explicou que trabalha como diarista, mas está sem fonte de renda no momento, porque sua patroa está de férias. Nívea do Carmo e Elba do Carmo, que trabalham de diaristas como babás, há um ano vêm disputando essa coleta com pessoas necessitadas, para complementar o orçamento familiar. "Nós duas, juntas, conseguimos por mês uns R$ 200?, contou Nívea, carregando dois sacos com latinhas e elogiando a festa de hoje. "A galera do PT bebe muito e é legal", disse. Essa desenvoltura incomoda Gilson Alves, estudante de 23 anos que há sete anos tem nas latinhas sua única fonte de renda. Embora conseguido coletar cinco quilos de latas em sete horas, Alves reclama da concorrência. "Tem gente demais catando latinha hoje", comentou. Ele está desempregado desde 1995, quando foi demitido de uma empresa de construção. Sua renda soma-se à pensão que a mãe recebe pela morte do pai para sustentar a casa. Edileusa Costa, uma maranhense que mora há 11 anos em Brasília, entrou nesse comércio há nove meses para ajudar a mãe, que chegou do Maranhão em busca de emprego, mas nada conseguiu até agora. Ela juntou-se ao marido para fazer a coleta na Esplanada durante a festa da posse, na esperança de obter pelo menos nove quilos de lata, o que lhe renderia R$ 18. Edileusa contou que seu marido tem emprego formal: trabalha em uma empresa de prestação de serviço de segurança. Outra que recolhe latinhas, Maria Ramos de Moraes, começou essa atividade há cerca de um ano, após ser atingida por uma bala perdida na cidade-satélite de Samambaia. Segundo ela, após o ferimento a bala, passou a ter dificuldades para trabalhar como diarista. Além de vender lata, ela usa os lacres das embalagens para fazer roupas e sapatos artesanais.

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