Por aval dos eleitores, Planalto adota nova estratégia de marketing

Dilma vai intensificar as viagens pelo País e as reuniões com aliados no Congresso para conter efeitos da crise política

Vera Rosa / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

29 Agosto 2011 | 00h00

A crise política que quase entornou o caldo da governabilidade fez a presidente Dilma Rousseff adotar novo estilo. A partir de agora, sua estratégia de comunicação vai mudar. Habituada a cultivar a imagem de "gerentona", Dilma sairá mais do gabinete. A ideia é divulgar os programas da Esplanada em viagens e promover reuniões periódicas com os aliados no Congresso.

De olho no apoio da população para possíveis medidas duras que ainda terá de tomar, tanto na seara política como na econômica, ela já começou a agir para fisgar a classe média e conquistar os movimentos sociais.

A reação foi preparada sob medida para afastar a impressão de que o governo está paralisado pela tormenta provocada por escândalos de corrupção e degola de quatro ministros em pouco mais de dois meses. Nesta semana, por exemplo, Dilma fará um giro por sete cidades, em quatro Estados (Pernambuco, Minas, Rio e Rio Grande do Sul), e participará de nove atividades.

No jantar com deputados e senadores do PMDB, oferecido pelo vice Michel Temer, na terça-feira passada, Dilma não só afagou os parlamentares como mostrou estar disposta a curar as feridas na coalizão. "Ninguém vai me intrigar com o PMDB", avisou, segundo parlamentares que participaram do convescote, no Palácio do Jaburu.

Diante da disputa de hegemonia pelo controle do governo, travada entre o PT e o PMDB - os dois maiores partidos da base aliada -, Dilma teve de assumir as rédeas da coordenação política do Planalto.

Por ordem da presidente, seus auxiliares tentam agora trazer o PR do senador Alfredo Nascimento - ministro defenestrado dos Transportes - de volta para a aliança governista. Na semana passada, o deputado Lincoln Portela (MG), líder do PR, assinou o pedido de criação da CPI da Corrupção. O partido, porém, não cumpriu a promessa de entregar os cargos que possui no governo.

"Pode até acontecer que alguém do PMDB também assine pedido de CPI, porque não temos unanimidade. Mas vamos jogar água nessa fervura. Não vamos apagar o fogo com gasolina", afirmou o senador Eunício Oliveira (PMDB-CE).

Boca fechada. Para o presidente do PP, senador Francisco Dornelles (RJ), a receita para afastar a turbulência é boca fechada. Na tentativa de conter a rebelião do PP na Câmara, que pôs na linha de tiro o ministro das Cidades, Mário Negromonte (PP) - acusado de oferecer R$ 30 mil a deputados para ter de volta o controle da bancada -, Dornelles enquadrou o partido. "Crise política se resolve com silêncio, trabalho e pouca reunião", ordenou.

Furioso com declarações de Negromonte, que, em entrevista ao jornal O Globo, ameaçou exibir a "folha corrida" dos colegas e disse que o racha no PP acabaria em "sangue", Dornelles mandou o ministro sair de cena.

Preocupada com as próximas votações no Congresso e disposta a repactuar a combalida aliança, Dilma não só se reúne hoje com o Conselho Político como também terá um encontro com as centrais sindicais. As relações do Planalto com os sindicalistas - já abaladas pela falta de convite para a discussão da política industrial - ficaram ainda mais estremecidas depois que a presidente vetou o aumento real para os aposentados, em 2012.

Palanques. O retorno aos palanques está previsto para amanhã, quando a presidente viaja para Cupira (PE), no agreste pernambucano. Lá, ela vai assinar ordem de serviço para a construção de duas barragens, além de um convênio para financiar moradias. Depois, irá para Garanhuns (PE), cidade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, onde participará da aula inaugural do curso de Medicina da Universidade de Pernambuco.

Seguindo conselhos de Lula, que vê na mídia regional um importante polo de divulgação dos planos do governo, Dilma tem aproveitado essas ocasiões para dar entrevistas a rádios locais.

Depois de despertar ciúmes no PT ao aparecer ao lado de tucanos, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, Dilma estará ao lado de governadores do Norte, no próximo dia 9, em Manaus, para relançar o Brasil sem Miséria.

ITINERÁRIO PRESIDENCIAL

No Nordeste

Amanhã, viaja a três cidades de Pernambuco. Em Cupira (a 180 km de Recife) assina contratos do Minha Casa, Minha Vida

No Sudeste

Na manhã de quinta-feira, vai à cidade mineira de Jeceaba (120 km de Belo Horizonte), onde inaugura um complexo siderúrgico. À tarde, participa da cerimônia de abertura da Bienal do Livro, no Rio de Janeiro

No Sul

Vai ao Rio Grande do Sul na sexta-feira, onde visita duas cidades. Em Canoas (região metropolitana de Porto Alegre), participa da inauguração de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA)

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