Por cautela, polícia adia fim do inquérito e marca reconstituição

Delegado Aldo Galiano Junior disse que é preciso ouvir 4 testemunhas e colocar casal frente a frente e na cena do crime

Bruno Tavares e Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

23 de abril de 2008 | 00h00

A polícia tirou o pé do acelerador. A expectativa de concluir ontem o inquérito policial sobre a assassinato de Isabella de Oliveira Nardoni, de 5 anos, foi substituída pela decisão da polícia de anexar os laudos da perícia ao inquérito. A decisão permitirá que os advogados de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá - pai e madrasta da menina e indiciados pelo crime - tenham acesso aos documentos, em resposta à ameaça da defesa de recorrer à Corregedoria da Polícia Civil, conforme publicou ontem o Estado.Além disso, a polícia pretende fazer, no dia 27, a reconstituição do crime e a acareação entre os indiciados e ouvir os depoimentos de quatro testemunhas - o pai e a irmã de Alexandre e dois moradores do Edifício London, onde o crime ocorreu. Isabella morreu após ser jogada do 6º andar no dia 29.Assim, o inquérito só deve ser relatado pelos delegados do 9º Distrito Policial (Carandiru) na próxima semana, quando, além de apontarem o casal como autor do crime, eles deverão pedir à Justiça a decretação da prisão preventiva de Alexandre e de Anna Carolina. A decisão de prorrogar as investigações foi tomada em uma reunião realizada na Secretaria da Segurança Pública. Delegados, peritos e um médico-legista se reuniram pela manhã com o secretário Ronaldo Marzagão.Depois de ouvir o que todos tinham a dizer, a cúpula da Segurança Pública julgou conveniente manter a cautela e prosseguir com a apuração do crime antes de a polícia e a perícia divulgarem os resultados. Para isso, foi decisivo o fato de a polícia temer que a defesa do casal usasse suas conclusões para preparar seus clientes para a acareação e para a reconstituição do crime.Concluída a reunião, o diretor do departamento de Polícia Judiciária da Capital (Decap), delegado Aldo Galiano Junior, foi incumbido de explicar à imprensa por que a polícia ia adiar a entrevista coletiva na qual deveria anunciar suas conclusões. Galiano deixou claro que uma das razões era não instruir a defesa. "Nós não queremos instruir, não. Eu acho que a defesa tem de ter acesso ao laudo para ela tomar um posicionamento, mas não ter acesso ao que a polícia pensa e ao que a polícia vai perguntar", afirmou.O delegado disse que o inquérito do caso tem seis volumes e que os laudos do Instituto de Criminalística (IC) sobre o local do crime e o do Instituto Médico-Legal (IML) sobre a causa da morte de Isabella foram anexados ao inquérito ontem, apesar de a polícia ter tomado conhecimento dos dois documentos na sexta-feira.A ausência dos laudos do inquérito gerou polêmica. A defesa de Alexandre e de Anna Carolina afirmava que a polícia não podia ter questionado o casal durante os interrogatórios de sexta-feira com base em laudos que não constavam do inquérito. Galiano respondeu a essa crítica dizendo que "as perguntas inerentes aos laudos foram feitas aos indiciados com base nas informações obtidas pelos delegados no local do crime e nas reuniões com os peritos".A Secretaria da Segurança Pública afirmou na noite de ontem que os advogados do casal não entraram com representação na Corregedoria, questionando os métodos de investigação e para "apontar uma série de irregularidades que foram cometidas na condução da investigação". O trio de advogados, por sua vez, não quis informar se ainda planeja oficializar a reclamação à Corregedoria.Segundo o delegado Galiano, a defesa terá pleno conhecimento e "plena possibilidade de tomar conhecimento do laudo". O delegado afirmou que os policiais do 9º DP pretendem ouvir mais quatro testemunhas do caso - Antônio Nardoni, pai de Alexandre, e Cristiane, irmã do pai de Isabella. Além deles, a polícia vai inquirir duas testemunhas, vizinhos do casal. Estes serão ouvidos às 14 horas de hoje e o pai e a irmã de Alexandre, às 16 horas. "Esses depoimentos são imprescindíveis para a conclusão do inquérito e para que possa ser feito relatório bem substanciado", disse Galiano. A intenção da polícia é evitar ainda a necessidade de investigações complementares a pedido do Ministério Público Estadual (MPE). "Eu acho que estamos fazendo um trabalho técnico e responsável. A cautela é a melhor arma que a polícia tem. Chegou num momento em que a defesa parte para um confronto. Nós agimos eticamente", afirmou o delegado. "Nós não achamos prudente um confronto. Não é salutar para a defesa, não é salutar para a polícia", completou Galiano.O delegado negou que Anna Carolina tenha sido agredida durante o tempo em que esteve detida no 89º Distrito Policial. Ela e o marido ficaram presos durante uma semana por ordem da Justiça durante as investigações do caso.A polícia pretende fazer a reconstituição do crime no domingo, e estuda evacuar o Edifício London durante os trabalhos. O casal pode participar da reconstituição, mas não é obrigado, pois nenhum acusado pode ser forçado a fazer prova contra si. A polícia quer mostrar com a reconstituição que seria impossível alguém invadir o apartamento, jogar a menina pela janela a e sair sem ser visto do prédio.VAIVÉM DO CASO29/3: Isabella Nardoni morre após ser jogada do 6.º andar 30/3: O pai, Alexandre Nardoni, e a madrasta, Anna Carolina Jatobá, prestam depoimento por 19 horas2/4: A Justiça decreta a prisão temporária do casal3/4: O casal é preso7/4: A defesa entra com pedido de habeas-corpus 11/4: O desembargador Caio Eduardo Canguçu de Almeida, do Tribunal de Justiça de São Paulo, autoriza a libertação do casal18/4: O casal passa 17 horas sendo interrogado. Alexandre e Anna Carolina são indiciados por homicídio triplamente qualificado (doloso, com as agravantes de motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima)Próximos passos27/4: Reconstituição do crime, com possível presença do casal29/4: Conclusão do inquérito, com possibilidade de pedido de prisão preventiva do casal

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