Andre Dusek/AE
Andre Dusek/AE

Por temer punições futuras, baixo clero atua para evitar cassação de Jaqueline

Interesse de parlamentares é evitar que processo no Conselho de Ética, ao considerar que fatos anteriores à posse possam ser quebra de decoro, abra precedentes; deputada foi flagrada recebendo dinheiro do mensalão do DF em 2006, antes de ser eleita

Leandro Colon / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2011 | 00h00

Deputados do chamado "baixo clero" - centenas de parlamentares que têm pouca expressão política na Casa - e integrantes da bancada feminina desencadearam uma operação nos bastidores para salvar o mandato da deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF), flagrada num vídeo, revelado pelo Estado, recebendo dinheiro vivo do esquema de corrupção no Distrito Federal.

Numa ação embalada pelo discurso corporativista, o grupo pró-Jaqueline tem dois argumentos debaixo do braço. Se ela for cassada por um ato ocorrido antes de ser eleita deputada federal (o vídeo da propina foi gravado em 2006, quando Jaqueline era deputada distrital no DF), um precedente será aberto para que outros parlamentares sejam punidos por irregularidades do passado. Ou seja, livrar Jaqueline seria salvar a própria pele no futuro. O segundo argumento é o de que a prática de caixa dois de campanha, usada na defesa da deputada para explicar o dinheiro, é algo comum entre os políticos.

A reportagem acompanhou os passos de Jaqueline nos últimos dias e a flagrou em conversas com deputados pedindo apoio e lamentando problemas de saúde. Ainda sem decidir se vai depor no Conselho de Ética, onde sofre um processo de cassação, ela já entrou em ação para salvar o mandato. E, até agora, ouviu o que queria. "Qualquer um de nós está sujeito a um deslize qualquer", disse a deputada Elcione Carvalho (PMDB-PA).

Em conversa com o Estado ontem à tarde no plenário, Jaqueline falou pela primeira vez sobre sua defesa e endossou a retórica dos colegas em tom de recado (leia entrevista abaixo): "Eu não era deputada na época. Eles (deputados) entendem que: já imaginou se a lei for retroagir para todos, a prerrogativa que vai abrir?".

O Estado flagrou o deputado Onofre Agostini (DEM-SC) dizendo a Jaqueline e outros colegas que todo parlamentar recebe caixa dois de campanha e que, por isso, votará contra a cassação dela. Agostini é um típico membro do baixo clero. "Vou dizer que os deputados não recebem ajuda financeira? Todos recebem. Não vou ser hipócrita. É lógico que muitos recebem recursos não contabilizados", disse ontem ao Estado, em entrevista gravada, ao ser questionado sobre o que dissera a colegas.

A reportagem assistiu, às 18h de terça, a um encontro de 45 minutos entre Jaqueline Roriz e o deputado Protógenes Queiroz (PC do B-SP), numa mesa de canto, na sala do cafezinho da Câmara. Jaqueline chorou, reclamou do momento que vive e disse que ela e sua família têm tomado calmantes.

A conversa foi intermediada pelo deputado Chiquinho Escórcio (PMDB-MA), aliado da família Sarney e do clã Roriz no Distrito Federal. Escórcio trabalha no baixo clero para ajudar Jaqueline. "Eu disse para ela parar de tomar calmantes, enfrentar e apresentar sua defesa", disse Protógenes, delegado afastado da Polícia Federal. Ele garantiu que não manifestou nenhum apoio à deputada do DF.

Jaqueline foi também bajulada em plenário por parlamentares, entre eles Elcione, "procuradora da Mulher", função que cuida de projetos e temas relacionados à mulher. A bancada feminina, composta por 45 parlamentares, é uma das apostas de Jaqueline. Ex-mulher de Jader Barbalho, Elcione disse, no meio da roda formada no plenário, que Jaqueline tem sofrido um "massacre". Procurada pelo Estado, ela confirmou a conversa: "A imprensa em determinadas horas exacerba. Não estou querendo passar a mão. Não dá para explorar do jeito que está sendo explorado. Todo mundo tem que ter ajuda de campanha".

Vídeo

O ministro Joaquim Barbosa, do STF, autorizou cópia do vídeo no qual Jaqueline Roriz aparece recebendo dinheiro. A cópia deve ser entregue à Câmara. "Não há obrigação de guardar segredo", diz Barbosa.

O MENSALÃO NO DISTRITO FEDERAL

1

O que é

Esquema de corrupção desmantelado em 2009 pela PF. Consistia na arrecadação de propinas de empresas que prestavam serviços ao governo do DF para financiamento de campanhas e distribuição de mesada a políticos

2

A operação

Em 27 de novembro de 2009 a PF desencadeia a Operação Caixa de Pandora. São divulgados 30 vídeos gravados por Durval Barbosa. Em um deles, José Roberto Arruda aparece recebendo R$ 50 mil

3

Prisão

Em fevereiro de 2010, Arruda é preso acusado de obstrução de provas e tentativa de subordo à testemunha do inquérito. Em março ele é cassado pelo TRE e decide não recorrer, perdendo o mandato em definitivo

4

Acusação

O grupo é acusado de praticar fraude em licitações públicas e superfaturamento para extrair propinas destinadas a gastos pessoais, enriquecimento ilícito, financiamento de campanha e aliciamento de parlamentares

5

Crimes

Os crimes investigados pelo inquérito 650 incluem formação de quadrilha, corrupção ativa e passiva, sonegação fiscal, fraudes contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro e ocultação de bens

6

Fase atual

A procuradora da República Raquel Dodge prometeu oferecer denúncia contra os acusados, mas não estipulou prazo. Alguns têm direito a foro especial. O inquérito corre no Superior Tribunal de Justiça (STJ)

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