Portela alia técnica à tradição contra jejum de 23 anos

Maior vencedora do Carnaval carioca, mas sem comemorar uma conquista há 23 anos, a Portela percebeu que chegou a hora de adequar a tradição da escola azul e branco às determinações técnicas cobradas pelos jurados para fazer jus ao histórico de títulos. Inspirada este ano por um enredo que conta a história do esporte e comemora os Jogos Pan-Americanos no Rio, a escola garante ter deixado para trás o lema "importante é competir" e aposta em uma profissionalização maior e em um samba fácil de cantar para por fim ao jejum. "Achavam que a Portela tinha nome e não precisava de título, bastava passar pela avenida e estava bom", disse à Reuters o carnavalesco Amarildo de Mello, responsável ao lado de Cahê Rodrigues pelo enredo Os deuses do Olimpo na terra do Carnaval: uma festa do esporte, saúde e beleza. "O enredo é leve e permitiu que a gente colocasse uma escola esteticamente da maneira técnica que é exigida hoje", acrescentou. A última vez que a escola sagrou-se campeã absoluta foi em 1970, com "Lendas e mistérios da Amazônia". Em 1984, dividiu o título com a Mangueira. A exigência por desfiles cada vez mais rebuscados, financiados pelo grande mercado que se tornou o Carnaval, causou um conflito de sentimentos na Portela, que resistiu para implantar a nova tendência ao seu desfile. Em 2006, a escola deu início à mudança e terminou em sétimo lugar, a uma posição de voltar para o desfile das campeãs. A promessa desta vez é brigar pelo título, e a Portela aposta em um samba que há semanas é líder nas rádios cariocas. "A Portela demorou um pouco mais a se adequar por não querer deixar que a emoção se perca junto à técnica. A Portela é uma escola muito tradicional e há de se respeitar isso, mas sei que precisa ter técnica", afirmou Mello, que há três anos coordena os desfiles da escola. "Este ano, vamos ficar muito próximos, não digo que é a perfeição, mas vamos estar preparados para ganhar o campeonato." Recuperando o orgulho portelense A necessidade de modernização era consenso na escola, e se engana quem pensa que a mais tradicional Velha Guarda do Carnaval era contrária à nova postura. Aos 73 anos, 60 desfilando pela Portela, o sambista Monarco confessa frustração pela longa espera por um título e exalta uma Portela "profissional", fruto do trabalho do novo presidente Nilo Figueiredo. "Todas as escolas sonham com o título do Carnaval e a Portela também tem que pensar desta maneira. Somos a escola mais tradicional, mas também precisamos entrar nesta disputa, porque há muitos anos não conseguimos uma boa colocação", disse ele à Reuters. "O dono precisa estar com o umbigo no balcão pro negócio funcionar, e acho que a Portela estava abandonada. Agora todo dia a gente vê o presidente lá no barracão, em cima do pessoal." Para recuperar a auto-estima e o orgulho portelense, a escola investiu na comunidade boa parte do orçamento de 4,5 milhões de reais para o desfile deste ano. Além dos ensaios na quadra, quase metade dos 4.500 componentes serão de Madureira, com fantasias distribuídas gratuitamente. Nilo conta que o portelense tinha perdido o hábito de freqüentar a escola e participar do dia-a-dia do Carnaval, muito devido à série de resultados ruins na avenida. Aqueles que estarão desfilando na Marques de Sapucaí na madrugada do dia 20 irão incorporar o enredo e cantar o samba com "verdadeiro amor portelense", segundo ele. "A Portela tem obrigação de fazer por merecer e honrar sua história. Ir pra a avenida e obter uma boa colocação é uma obrigação da Portela. Se vamos ganhar ou não, é outra coisa, mas o importante é estarmos em excelentes condições de brigarmos, e isso finalmente vamos estar", disse ele.

Agencia Estado,

11 Fevereiro 2007 | 16h43

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