Porto da Pedra emociona com apartheid sul-africano

Numa noite quase temática - três das sete escolas cantaram a África - a Porto da Pedra fez uma emocionante apresentação com enredo sobre o apartheid. Tudo funcionou - desde o samba, um dos mais bonitos dessa safra, a inovações como a ala das baianas duas vezes maior do que o normal, com 250 componentes. Apesar de a escola não ter conseguido patrocínio da África do Sul, o que foi tentado dois meses antes do carnaval, a agremiação fez rico desfile. Todos os oito carros tiveram movimento. A comissão de frente do coreógrafo Roberto Lima foi composta por dez "Nelson Mandelas" e cinco tigres, o mascote da escola. Os atores caracterizados como Mandela foram maquiados pelo global Vavá Torres dez horas antes do desfile. Eles evoluíram com a ajuda de uma roda metálica, onde o mapa da África do Sul era montado de tempos em tempos. A ala das baianas tinha fantasias nas cores branca (esperança), cinza (insegurança) e preta (luto). Fizeram bonito espetáculo. A cada vez que o puxador Luizinho Andança pedia "liberdade, pelo amor de Deus", as 250 mulheres erguiam as mãos para o céu. A bateria de Mestre Louro também teve inovação esse ano. Além da tradicional paradinha, os integrantes respondiam ao puxador, com um grito de "Tigre!". "Essa sim é uma inovação. A bateria conversa com o puxador", explicou Louro. O carro que simbolizava o levante contra o regime do apartheid trazia a reprodução de pessoas baleadas, um pai carregava o filho ferido. Outro carro fazia uma crítica ao mellow yellow, carro blindado que inspirou o "caveirão" usado pelas tropas de elite do Rio. Integrantes de ONGs como AfroReggae e Nós do Morro participaram da apresentação. O secretário de Estado de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, acompanhava o desfile na avenida (a filha dele Mariana, de 19 anos, saiu em uma das alas) e disse que não se incomodou com a crítica. "Aqui não tem caveirão. Tem equipamento para transporte de tropa", respondeu. O contratempo ficou por conta da rainha de bateria Elaine Ribeiro e a madrinha, a modelo Ângela Bismarck. Ângela saudou sozinha os setores populares, enquanto Elaine, que desfila há 13 anos na Porto e tem o nome da escola tatuado nas costas, foi puxada de lado por um diretor. "Não me colocaram de escanteio. Eu estava sendo muito assediada pela tevê", minimizou Elaine. Durante a evolução da escola, o tapa-sexo de Ângela Bismarck, que desfilava apenas com o corpo pintado e (mal) coberto por cristais, se desfez. Em alguns momentos, ajudantes tiveram de cortar pedaços do acessório que se desmanchava e ficou preso entre as pernas. No recuo da bateria, Ângela substituiu o ineficaz tapa-sexo por um mini biquíni com laterais de silicone. "Na passarela, uma mulher prevenida vale por duas", disse. A modelo, que já fez 15 cirurgias plásticas, preparou-se para o desfile com uma lipoescultura. O marido e cirurgião plástico Wagner de Moraes disse que não ficou com ciúme da quase nudez da mulher. "Ela é só minha", afirmou. O exemplo de profissionalismo ficou por conta do diretor de barracão Carlinhos Castro, de 52 anos. Ele teve um princípio de infarto na concentração, foi levado para o Hospital Municipal Souza Aguiar, mas não aceitou a ordem dos médicos para que ficasse internado. "Arranquei aqueles aparelhos de monitoração do peito e voltei para a avenida", disse Carlinhos, que acompanhou a comissão de frente até o fim do desfile. "Meu compromisso está cumprido. Estou com sentimento de coração lavado", disse ele, que ainda sentia pontadas na cabeça e voltaria ao médico logo após o fim da apresentação.

Agencia Estado,

19 Fevereiro 2007 | 22h41

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