Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Posto de saúde ganha nome de vítima, mas homicídio de adolescente no Rio nunca foi esclarecido

Jeremias morreu aos 13 anos após ser atingido por um disparo no Complexo da Maré. Prefeitura homenageou vítima com nome de unidade de saúde, mas investigação do crime acabou arquivada

Fábio Grellet, O Estado de S. Paulo

13 de outubro de 2021 | 05h00

Vinte e quatro dias depois de uma bala atingir e matar Jeremias Moraes da Silva, de 13 anos, na favela Nova Holanda, no Complexo da Maré (zona norte do Rio), o poder público prestou uma homenagem à família da vítima. Nomeou, em março de 2018, a nova clínica da família do bairro com o nome do garoto. O assassinato, porém, segue sem resposta até hoje. 

O homicídio não esclarecido é um dos inúmeros casos na mesma situação no Rio. O Estado, segundo levantamento inédito do Instituto Sou da Paz, só esclareceu 14% dos assassinatos cometidos em 2018, patamar que o coloca com o segundo pior índice do País.  

“O dia mais triste passou a ser 25 de agosto, quando Jeremias faria aniversário. Antes eu fazia festa, agora passo esse dia no cemitério”, lamenta a mãe do jovem, Vânia Moraes da Silva, de 42 anos. Ela viu a sua vida virar do avesso. Engordou, desenvolveu hipertensão e já tentou se suicidar três vezes. “Quem me sustenta é o Senhor”, diz, referindo-se à crença religiosa.

Jeremias estudava, jogava futebol, tocava violão e cantava na igreja. Ia à escola pela manhã, mas naquele dia não teve aula, cancelada por conta de um tiroteio numa favela vizinha. Logo após almoçar, o adolescente foi à aula de violão com uma “irmã” da igreja. Estava na porta da casa dela, com um pirulito na boca, por volta das 13h30, quando foi atingido nas costas por um tiro de fuzil. 

Por ali passava um caveirão - como são chamados os veículos blindados da polícia - do 22º Batalhão da Polícia Militar. O quartel fica a poucos metros da casa da evangélica. Apesar das suspeitas de que o tiro partiu dos agentes de segurança que estavam nesse veículo, a Polícia Civil considerou não ter provas sobre a autoria do disparo que matou o adolescente, considerou que ele foi vítima de bala perdida e arquivou a investigação.

Segundo o advogado Marcelo Pires Branco da Costa, que representa a família de Jeremias, o Ministério Público do Estado do Rio começou uma investigação própria. Mas, passados três anos e oito meses do crime, ainda não chegou a nenhuma conclusão.

Outro caso que ainda está sem solução – mas o inquérito segue aberto – é o das primas Emilly Victoria da Silva, de 4 anos, e Rebeca Beatriz Rodrigues dos Santos, de 7. 

Em 4 de dezembro de 2020, por volta das 20h, elas brincavam na frente da casa de uma delas, na favela Santo Antônio, em Duque de Caxias (Baixada Fluminense). Foram atingidas por tiros e morreram. A avó de Rebeca, Lídia Santos, que chegava naquele momento, afirma ter ouvido cerca de dez tiros e visto um veículo da Polícia Militar passando pelo local.

“Já se passaram dez meses e nada de apontar os culpados. Primeiro a polícia (Civil) culpou a pandemia, depois disse que precisava centrar esforços no desaparecimento dos três meninos (desaparecidos no município de Belford Roxo, em 27 de dezembro). Se a vítima fosse alguém importante, já teriam resolvido”, lamenta Lídia. 

Na época desses homicídios, a Polícia Militar do Rio negou ter responsabilidade pelas mortes. 

Questionada pelo Estadão sobre o estudo divulgado pelo Instituto Sou da Paz, que se refere a crimes praticados em 2018 e investigados até o final de 2019, a secretaria estadual de Polícia Civil do Rio, em nota, responsabiliza os chefes anteriores da corporação. 

No texto, afirma que “governos anteriores e gestores passados da área de segurança é que devem responder estas perguntas, não uma gestão que assumiu há pouco mais de um ano”. Em setembro de 2020, a convite do então ainda governador interino Cláudio Castro (PL), o delegado Allan Turnowski assumiu a pasta da Polícia Civil.

“A atual gestão implementou uma política de segurança baseada em inteligência, investigação e ação. As ações têm alcançado redução constante em todos os índices de violência registrados pelo Instituto de Segurança Pública. Vale ressaltar que todos os casos são investigados”, continua a nota. 

“A Polícia Civil, em busca de melhorar ainda mais estes números, já completou o quadro de delegados das delegacias de homicídios e pretende suprir o déficit de inspetores em breve, com o novo concurso já anunciado. Além disso, vem adquirindo novas tecnologias para as áreas de investigação e perícia, buscando melhorar ainda mais seus resultados”, conclui o texto. 

A polícia não deu informação sobre o caso  de Jeremias e seu arquivamento. As mortes das duas meninas ainda são investigadas pela polícia.

Para a antropóloga, especialista em Segurança Pública e professora da Universidade Federal Fluminense Jacqueline Muniz, um dos problemas da Polícia Civil é a opção por um modelo operacional que tenha visibilidade.

“O trabalho correto da Polícia Civil consiste em conversar com testemunhas, ir colhendo provas”, explica.  “É monótono, rotineiro e não tem visibilidade. Em vez disso, preferem fazer operações, como a do Jacarezinho (que causou a morte de 28 pessoas, em maio deste ano), ser a polícia do espetáculo, que não conta com inteligência nenhuma e multiplica o medo da população. “Além disso, a polícia tem autonomia excessiva, não está submetida a um controle social adequado”.

A professora considera que a existência de facções criminosas e grupos milicianos, que dominam diversos territórios do Rio de Janeiro, não interfere na produtividade da polícia. Ressalta ainda que homicídio é um tipo de crime com fator de resolução alto, em comparação com furto, por exemplo.

“Logo depois do crime é relativamente fácil compor o cenário e, a partir da história da vítima, identificar suspeitos e criar uma linha de investigação. Mas essa facilidade vai diminuindo conforme o tempo passa. Um mês depois, a memória já nos trai”, avalia.

 

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