Postos mais distantes ficam sem profissionais do Mais Médicos em SP

Na 1ª fase do programa federal, bolsistas escolheram UBSs em regiões menos periféricas e com menos déficit de profissionais; na contramão, locais com alta demanda continuam sem previsão de novas contratações

Adriana Ferraz e Mônica Reolom,

30 de agosto de 2013 | 23h33

Ao menos metade dos 16 profissionais selecionados para participar do programa Mais Médicos na capital paulista optou por trabalhar em unidades de saúde em bairros menos periféricos e que têm, no máximo, quatro plantões vagos – nos extremos da cidade, há postos que chegam a ter 16 plantões vagos.

A primeira lista de 12 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) contempladas pelo programa do governo federal inclui bairros como a Vila Campestre e a Vila Santa Catarina, além da Favela de Paraisópolis, todos na zona sul e mais próximos da região central. Localidades distantes, como os bairros de Brasilândia, na zona norte, e Vila Curuçá, na zona leste, também foram contemplados. Mas localidades do extremos da zona leste, considerados de vulnerabilidade social, como Jardim Romano, Cidade Tiradentes e Guaianases, ficaram de fora desta primeira fase do programa federal.

A Prefeitura ofereceu uma lista de 80 endereços aos médicos participantes, que tiveram autonomia para escolher seu posto de trabalho.

De fora ficaram unidades carentes, como a AMA Jardim Santo André, na zona leste, onde a operadora de caixa Maiane Xavier, de 22 anos, levou mais de três horas para conseguir que seus dois filhos fossem atendidos pelo pediatra, na manhã desta sexta-feira. "É sempre demorado. Tem dia em que falta médico e a gente tem de se deslocar para outro lugar", afirma. A demanda por pediatras e clínicos no posto é uma das maiores, com 16 plantões vagos.

Para piorar, os médicos faltam com frequência, afirma ela. "O pediatra às vezes não aparece. E, quando o segundo pediatra sabe que o primeiro não vai, também não aparece. A pressão da população sobre eles é muito grande, por isso não gostam de vir sozinhos", diz o clínico Dennis Freddy Teran, de 33 anos.

 

Visita. Na contramão, a Unidade Básica de Saúde Cupecê, na zona sul, só tem uma vaga aberta – e vai receber um médico do programa do governo federal. Ontem, 25 intercambistas foram conhecer o posto. Nos corredores, a presença dos estrangeiros chamou a atenção.

"É bom que eles venham aqui e vejam como as coisas são. Só por causa deles, a direção mandou trocar as lâmpadas queimadas e colocar papel higiênico nos banheiros", reclamou a vigilante Mônica Ferreira, de 26 anos. As ponderações foram ouvidas pelos médicos, que não desanimaram.

"Faz parte. Temos de ouvir as pessoas para saber qual é a realidade e poder trabalhar com ela. Ninguém aqui acha que não vai enfrentar problemas", argumentou o argentino Lucas Canavoso, de 33 anos. Especializado em cirurgia geral, ele vai atender no Guarujá, no litoral paulista. A colega Natalia Alloco, de 26 anos, se mostrou surpresa com a visita. "As unidades podem ter problemas, mas têm mais equipamentos e medicamentos do que imaginei", disse.

Na capital, as 12 unidades básicas de saúde selecionadas são administradas por Organizações Sociais (OSs), que, por contrato, deveriam providenciar a contratação dos médicos. A Secretaria Municipal da Saúde afirmou que as parceiras não receberão pelos profissionais do Mais Médicos e informou ainda que o programa federal não é a única estratégia para contratação na cidade. As OSs precisam completar mais de 1,2 mil plantões vagos.

 

Estado. O "poder de escolha" não foi dado apenas para quem viesse trabalhar na cidade de São Paulo. É regra do programa federal permitir ao profissional inscrito fazer suas opções. De acordo com o Ministério da Saúde, nessa primeira leva de selecionados, as primeiras opções acabaram contempladas. E boa parte delas inclui cidades das regiões metropolitanas de São Paulo, Santos e Campinas.

O resultado é a exclusão dessa primeira fase de municípios estaduais considerados prioritários de acordo com seus índices de vulnerabilidades sociais, como Pedreira, São Lourenço da Serra, Embu-Guaçu e Cosmópolis.

O governo federal estima que essas localidades sejam atendidas nas próximas chamadas./COLABOROU VICTOR VIEIRA

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