Pouco antes, ligou para a mulher

Ligação de celular caiu quando Costa foi dominado por ladrão; 300 pessoas foram ao enterro

Clarissa Thomé, RIO, O Estadao de S.Paulo

16 de julho de 2008 | 00h00

Sobrinho de Luiz Carlos Soares da Costa, Wanderlei Pereira contou que, pouco antes de ser assaltado, o administrador de empresas ligou para a mulher, Simone, para avisar que estava saindo da academia, como sempre fazia. Na seqüência, a ligação caiu subitamente. A mulher, desesperada, tentou retornar o telefonema, mas não conseguiu. "Ela achou que havia acontecido alguma coisa, mas não conseguiu mais falar com ele", disse Pereira. Era o momento em que Costa estava sendo dominado pelo assaltante. A vítima sempre ligava para a mulher, antes de seguir para casa. "Ele era muito querido, amigo de todos", afirmou Pereira.Cerca de 300 pessoas acompanharam o enterro do administrador, no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, no fim da tarde de ontem. Muito emocionada, Simone precisou ser amparada várias vezes por parentes e amigos. O administrador, que também era pastor evangélico, foi enterrado ao som de hinos religiosos e gritos por justiça.Lula, como era chamado pelos parentes, era lembrado a cada momento como um rapaz trabalhador, que estudou com dificuldades e cresceu profissionalmente no Infoglobo, empresa em que foi contratado como contínuo, aos 19 anos. "Ele teve de interromper o ensino médio. Mas quando começou a trabalhar no Infoglobo foi estimulado a crescer", contou o irmão, Ednaldo Dias, de 50 anos.TEOLOGIADepois de se formar em Administração de Empresas, passou a atuar na área de logística na empresa. Estudou ainda Teologia e atuava como pastor da Igreja Assembléia de Deus, na Ilha do Fundão, zona norte do Rio. Casou-se com Simone há sete anos. O casal planejava para breve o primeiro filho. No ano passado, abriu com outros dois amigos, também da Igreja, uma empresa de limpeza e conservação."Meu irmão estava no auge da vida, empolgado, feliz. Acordava todos os dias, satisfeito por estar crescendo profissionalmente, construindo sua família. Nós poderíamos perder o meu irmão para qualquer bandido. Mas é duro aceitar que ele teve a vida ceifada por aqueles que deveriam protegê-lo", disse o servidor público Ednaldo Dias, de 50 anos. O sobrinho Pereira, revoltado, se perguntava, em entrevista à Globo News, "até quando a polícia do Rio mataria inocentes", em referência ainda ao caso do menino João Roberto, que estava em um carro fuzilado por militares. "Quantos mais terão de morrer para que possamos avaliar a nossa polícia, para que façamos algo em relação a isso?", questionou, emocionado.CAÇULA DE 12Costa era o caçula dos 12 filhos - cinco homens e sete mulheres - da aposentada Lindalva Francisca. O primeiro filho, ela perdeu ainda na Paraíba, quando o menino tinha 8 anos e foi atropelado por um caminhão que deu marcha à ré. Ontem, estava resignada. "Ela está muito forte para uma pessoa de 77 anos, é evangélica e está segura porque tem muita fé. O Lula tinha tomado para si as responsabilidades em relação a nossa mãe. Desde que passou a trabalhar no Infoglobo, assumiu todas as despesas dela. Era muito responsável, mais que os irmãos mais velhos", disse Dias, muito emocionado. Outro que não conseguia segurar a emoção no enterro era o sobrinho Rogério Soares Guilherme, de 20 anos. "A última vez que nos vimos foi há 15 dias. Ele foi lá em casa para me dar conselhos", lembra."Eu brincava com ele, costumava chamá-lo de playboy, porque estava sempre arrumadinho", continuou Guilherme. "Na hora de ir embora, eu disse: ?te amo, tio?. Eu não podia imaginar que seria a última vez." FRASESEdnaldo DiasIrmão da vítima"Meu irmão estava no auge da vida, empolgado, feliz. Acordava satisfeito por estar crescendo, construindo sua família"Antônio Carlos CostaONG Rio de Paz"A PM está mais empenhada em matar bandido do que em defender as pessoas"

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