Pré-candidatos ainda preparam seus programas

Equipes de campanha mantêm conversas com ruralistas em busca de informações para propostas de governo

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2010 | 00h00

Sob o chapéu de caubói com que se exibiram nas últimas semanas os pré-candidatos Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) está a preocupação em conquistar um portentoso eleitorado de 5,2 milhões de produtores.

Enquanto discursam contra invasões e posam para fotos sobre tratores - ambos foram à Agrishow, em Ribeirão Preto (SP), e à Expozebu, em Uberaba (MG) - e Serra também à Feira Nacional da Soja, em Santa Rosa (RS) -, as equipes dos dois pré-candidatos mantêm conversas privadas com ruralistas a fim de colher informações para os programas de governo.

Serra aproximou seu discurso da direita, cobrou rigor contra invasões de terra, voltou a defender a segurança jurídica no campo - o que opositores chamam de criminalização dos movimentos sociais - e prometeu um modelo de seguro rural mais efetivo para garantir a renda diante de prejuízos com as safras.

Também rubricou o abaixo assinado que a presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), senadora Kátia Abreu (DEM-TO), fez circular na Expozebu, pela criação de um programa federal contra invasões.

Dilma declinou, educadamente, pedindo tempo para "avaliar melhor a proposta". Mas, tentou amenizar a imagem do PT junto aos ruralistas. A pré-candidata, que tem apoio do Movimento dos Sem-Terra (MST), discursou contra invasões usando frases de efeito como "a ilegalidade não pode ser premiada".

No campo minado do agronegócio brasileiro, no entanto, Dilma terá de enfrentar resistências dentro do próprio partido, se quiser ganhar a confiança dos ruralistas. As recomendações dos diretórios estaduais para o setor agrário, que o PT nacional entregará na sexta-feira à coordenação da campanha, incluem tributação sobre grandes fortunas, intensificação e aprimoramento da reforma agrária, controle de acesso à terra por estrangeiros e a "revogação dos atos do governo FHC que criminalizam os movimentos sociais".

Insustentável. "Não queremos mais a reforma agrária dos anos 1950 e sim o desenvolvimento do campo. Mas o padrão que os ruralistas propõem é insustentável. Latifundiários e pecuaristas avançam sobre áreas florestais e são os maiores responsáveis pelos desmatamentos, não os pequenos produtores", diz o secretário do PT nacional para assuntos agrários, Osvaldo Russo.

Para ele, o plano de governo de Dilma deve ser pautado pelo fortalecimento da agricultura familiar junto a programas como Luz para Todos e Bolsa-Família no campo. "Não basta só distribuir terras. Os investimentos públicos têm de ser destinados ao pequeno produtor. Os grandes não precisam de dinheiro", diz.

Os petistas sabem, no entanto, que com esse discurso Dilma tem poucas chances de abarcar os ruralistas para o seu lado. Entre as recomendações do setor - um documento de quase 40 páginas entregue aos pré-candidatos pela senadora Kátia Abreu na Expozebu - estão mais crédito, menor carga tributária e solução para o endividamento rural.

Há ainda pontos polêmicos, como flexibilização do código florestal, autonomia dos Estados para definir áreas de proteção e legislação ambiental de caráter "educativo e não punitivo", reintegração de posse imediata, extinção dos índices de produtividade "como forma de auferir a função social da propriedade" e o endurecimento das regras para criação de áreas indígenas e quilombolas.

"Dilma terá de ouvir os ruralistas e adotar certa dicotomia na campanha, até porque, se eleita, terá de garantir governabilidade", admite Russo.

Mais afinado com os ruralistas, Serra fala em reforma "agrícola" e não "agrária". Segundo o secretário de Estado do Meio Ambiente, Xico Graziano, o programa do tucano terá foco em infraestrutura para escoar a produção, mecanismos financeiros para melhorar a rentabilidade no campo e "fazer funcionar e não expandir" assentamentos. "Temos 1 milhão de assentados. Não precisamos mais", diz Graziano.

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