''''Precisamos que governantes abram espaço''''

Entrevista[br]Lucila Lacreta: arquiteta, diretora-técnica do Movimento Defenda São Paulo

Renata Gama, O Estadao de S.Paulo

30 Novembro 2007 | 00h00

Nos últimos anos, iniciativas da sociedade civil, como ONGs e associações comunitárias têm exercido um papel importante na construção das cidades. Seja ao atuarem nos espaços onde o poder público não alcança, ou pressionando os governantes para que atendam às necessidades dos grupos. Na visão da arquiteta e urbanista Lucila Lacreta, diretora-técnica do Movimento Defenda São Paulo, que reúne cerca de 50 associações de moradores, a voz da comunidade tem crescido, sim, mas a custo de muito esforço. E ainda está muito longe de ser ouvida como deveria. "Os cidadãos ainda não são considerados legítimos interlocutores da sociedade", diz. O que falta, na opinião da líder comunitária, é o governo enxergar os cidadãos como parceiros. E ouvi-los. "Porque eles sabem exatamente para onde o País e os municípios devem ir." A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado:Pelo que se observa, não apenas em São Paulo, mas no mundo, grupos da sociedade civil têm participado mais ativamente das decisões políticas. Seja porque os Estados têm reduzido sua atuação junto aos cidadãos, ou por própria incompetência do poder público, ficam algumas lacunas a serem preenchidas. É nessas lacunas que as comunidades atuam?Acho que o pensamento é o contrário. Nas sociedades que são democraticamente fortes, a presença das associações de moradores é muito importante nas tomadas de decisão sobre os destinos da cidade. Eu não acho que um governo fraco pressuponha a ingerência da comunidade maior. Ao contrário, os governos que tiveram êxito, por exemplo, contam com um braço muito forte da comunidade como parceira. Infelizmente, no Brasil, este processo ainda engatinha. Porque as associações dos moradores, as ONGs ainda não são consideradas como parceiras. Na sociedade brasileira, os interlocutores do governo são os que detêm o grande capital financeiro. Os cidadãos ainda não são considerados legítimos interlocutores da sociedade. Isso, com grande esforço da comunidade, pouco a pouco, vem sendo mudado. Mas eu acho que precisamos de governantes conscientes, que realmente abram o espaço que a comunidade merece. Porque ela sabe exatamente para onde o País e os municípios devem ir.Na sua opinião, é possível haver um intercâmbio entre as três esferas: sociedade civil, iniciativa privada e governo?Acho que se houver real desejo pelo progresso da cidade com qualidade de vida, esse intercâmbio é possível. Os cidadãos comuns têm se mobilizado ou ainda preferem ficar no conforto de casa assistindo a tudo pela televisão?Eu acho que esse processo de participação tem aumentado principalmente porque a nossa cidade tornou-se inviável para viver, ter boa qualidade de vida. Há uma grande preocupação com as gerações futuras. O que será da São Paulo capital no futuro? Isso faz com que as pessoas realmente se mexam, procurem as entidades e participem. E acho que está aflorando a consciência de que se o cidadão não puser a mão na massa não vai acontecer nada. Acho que estamos vivendo uma situação da metrópole paulistana completamente do fundo do poço. Tanto que tem algumas iniciativas governamentais como, por exemplo, a cidade limpa, que foi um sucesso e teve uma adesão estrondosa. Eu acho que isso serve de exemplo para outras iniciativas mais corajosas dos próprios governantes. Eu acho que a nossa classe política está muito atrasada ainda em relação à qualidade da cidade que o cidadão comum deseja.O número de associações ligadas ao movimento aumentou ou diminuiu ao longo do tempo? Olha, acho que ficou mais ou menos estabilizado. Uma das recentes bandeiras do Movimento Defenda São Paulo tem sido a manutenção do Plano Diretor da forma como está. A proposta de revisão relaxa as restrições ao adensamento. O problema, na sua opinião, é o adensamento em si ou a falta de infra-estrutura para isso? As duas coisas. A cidade perdeu a mobilidade. Qualquer cidadão paulistano, qualquer turista, qualquer pessoa que visite ou que more nesta cidade sabe que ela está inviável sob o ponto de vista da mobilidade. O nosso sistema viário é muito acanhado. Ao longo dos anos não foi dotado de transporte coletivo suficiente para agüentar esse adensamento brutal que tem havido nos últimos 40 anos. E não há estudos que prevejam qual seria o investimento necessário para a cidade ser minimamente sustentável. O que está acontecendo é um grande improviso, mais uma vez. O Plano Diretor vigente, com uma série de prerrogativas de controle, foi completamente retirado. Quase todo o território - nós temos mapas que comprovam isso - poderá verticalizar quatro vezes a área o terreno. Isso não é Plano Diretor. Há críticas que acusam o Plano Diretor de estimular a formação de guetos em grandes condomínios fechados. E por restringir o adensamento nas regiões centrais, os terrenos encarecem e as moradias de baixa renda são jogadas para áreas cada vez mais periféricas. Sob esse aspecto, a senhora acha que o Plano Diretor deve ser revisto?Acho que ele deva ser revisto, mas essa revisão nem de longe passou perto desse tipo de problema. Ao contrário, ela exacerbou. Porque não estudou o adensamento de cada bairro, se ele é coerente com a infra-estrutura existente. Essa revisão do Plano Diretor não apresentou um estudo sequer, nada. Sem estudo de como está hoje e como será no futuro, este é um Plano Diretor suicida. Na sua opinião, que tipo de alterações deveriam ser feitas?Por exemplo, nós temos um problema gravíssimo que é o do aquecimento global. Teria de ser estudado como São Paulo faria frente a isso, levando-se em conta que o adensamento proporciona calor. Tem um estudo da geógrafa Magda Lombardo que diz que conforme as áreas são mais adensadas, mais quentes elas são. Não há nenhuma resposta para esse problema. Obviamente que sítios e áreas de várzea, que São Paulo tem muitas, deveriam ser protegidos. Tem outras áreas geologicamente instáveis que teriam de ser protegidas. A permeabilidade do solo teria de ser, se não aumentada, pelo menos mantida. A cidade não pode mais se impermeabilizar. O Plano Diretor trata en passant esse problema, mas não enfrenta.A indústria imobiliária tem tomado algumas medidas compensatórias no entorno das construções, como revitalizar parques, praças. O que você acha disso?Eu acho que as iniciativas são muito pequenas. Eu acho que é bom até que se faça, é melhor do que nada. Mas o poder público teria de exigir muito mais. Acho que isso é mais que obrigação. Eu sou presidente da associação daqui do bairro há três anos. Há dez, nós cuidados de quatro praças para não ficarem deterioradas e serem bem utilizadas pela população. E a própria comunidade que deveria receber o benefício do poder público ainda paga.

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