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Prédios, essas maravilhas

Você não acha incrível que os prédios não caiam? Existem milhões de prédios no mundo, muitos estão em pé há anos e anos, com quarenta, noventa andares, uns em cima dos outros, feitos de cimento, pedra, aço, barro: não seria nada estranho se, de tempos em tempos, algum desabasse por aí. Pegaríamos o jornal, pela manhã, e leríamos: "Edifício despenca no Chipre: vítimas chegam a oitenta", "Síndico afirma: prédio que ruiu em Pinheiros havia passado pela revisão anual", "Desabamentos condominiais são a oitava causa de morte, na Ásia".

Antonio Prata, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2009 | 00h00

Nas matérias, peritos acusariam um lençol freático, um ataque silencioso de cupins, uma infiltração antiquíssima no banheiro de empregada do terceiro andar, então ficaríamos um pouco tristes, como só acontece diante das tragédias distantes, e tocaríamos a vida. Fazer o quê? Prédio é arriscado mesmo, mas é o preço do progresso, como os aviões, os enlatados, as usinas nucleares, vamos que vamos.

Fico ainda mais abismado com a segurança dessas construções quando penso que não precisa fazer nada para conservá-las em pé. Máquinas precisam de manutenção. Computador precisa de manutenção. Dentes precisam de manutenção. Só prédio é que não. Basta construir e pronto. Não há que passar verniz nas colunas, todo verão, jogar cimento nas fundações, a cada dois anos, ou, quem sabe, substituir os tijolos, de década em década. Pelo menos, aqui onde eu moro, nunca vi nada disso. Tem dedetização, reforma na coluna d?água, pintura da fachada, enfim, só perfumaria.

Se eu vivesse muito tempo atrás, quando ainda não existiam prédios, e soubesse que um engenheiro estava projetando essa revolucionária forma de moradia, seria terminantemente contra. Claro que não vai dar certo! Vai cair! Imagina só se dez pessoas no último andar correm todas para o mesmo cômodo? Tragédia! Eu poria meu nome num abaixo-assinado, iria para a praça fazer passeata, ergueria faixas: prédio, não!

No entanto, a ideia não só deu certo como prédio é o que a humanidade faz de melhor. Os povos acabam, morre todo mundo, sobram o quê? Prédios. O que são as pirâmides, senão os prédios dos egípcios? Partenon? O prédio dos deuses. Quando queremos dizer que os incas, maias e astecas eram evoluídos, mencionamos seus rituais? Sua tapeçaria? Sua matemática? Nada. Falamos, "ó lá os prediões que eles construíam, ainda tão em pé!"

As religiões são duradouras, as línguas são duradouras, a humanidade, até, é duradoura. Mais dia menos dia, contudo, voltaremos ao pó do qual viemos, com nossos deuses e nossas histórias. E se, depois de nossa extinção, alienígenas pousarem sobre a Terra, querendo saber a que se dedicava a humanidade, olharão em volta e poderão fazer uma única afirmação, com segurança: prédios.

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