Prefeitura afirma que vai demolir imóveis em vila

Pelo menos cem pessoas foram ontem ao enterro da estudante Natália, que morreu soterrada

Bárbara Souza, O Estadao de S.Paulo

26 de fevereiro de 2008 | 00h00

A Prefeitura interditou ontem 35 imóveis construídos irregularmente nas encostas de um morro na Vila Sapo, no Jaçanã, zona norte da capital. Foi nesse local que a estudante Natália Araújo, de 14 anos, morreu soterrada, depois de sua casa ter desabado por causa das chuvas de anteontem. De acordo com a Subprefeitura do Jaçanã, os imóveis terão de ser desocupados em razão de risco iminente de novos deslizamentos. Até a noite de ontem, no entanto, ainda não havia abrigo para alojar as famílias nem prazo para a remoção dos moradores. Vivem no local famílias com 115 crianças e 3 mulheres grávidas. Segundo a Prefeitura, toda a vila será destruída.Uma casa construída regularmente na Rua Batinga, do outro lado do morro onde aconteceu o desabamento, também foi interditada por apresentar riscos. Os engenheiros que vistoriaram o local disseram que, por se tratar de um imóvel regularizado na Prefeitura, o proprietário poderá reformá-lo e voltar a morar no local. Moradores disseram ontem que o desmoronamento ocorreu porque a terra não suportou o volume de esgoto lançado de casas construídas regularmente na Rua Batinga. Os donos dos imóveis serão intimados a regularizar a situação na Companhia de Saneamento Básico do Estado (Sabesp), que é dona de parte da área afetada pelos deslizamento de terra. Outra parte, segundo os moradores, pertence à Santa Casa.Mesmo com o céu escuro e o risco de mais chuva, os moradores se recusam a ir para albergues públicos. "Essa ocupação existe há 40 anos e só agora perceberam o risco", reclamou a cabeleireira Gislene Sheila Freitas, de 29 anos. "Até sábado, a gente era esquecido. Agora lembraram que têm que tirar a gente daqui."Antes do deslizamento de sábado, os moradores preocupavam-se apenas com os riscos oferecidos pela ponte de madeira que improvisaram para atravessar o córrego e chegar a suas casas. "Isso é um perigo", disse o pedreiro Bento Eusébio da Silva, de 36 anos. Há um ano e meio, o irmão dele, de 40 anos, caiu da ponte. "Ficou paraplégico, porque caiu de pé e o rio é muito raso."Única forma de entrar na vila, a ponte de madeira já fez outras vítimas. Muitas crianças também já caíram. "Minha filha caiu e perdeu um dente", disse Gislene.ENTERROPelo menos cem pessoas acompanharam ontem o sepultamento da estudante Natália. Além de vizinhos, colegas da escola municipal Edson Rodrigues também foram ao Cemitério Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte.Amigas da jovem disseram que Natália era uma aluna esforçada e inteligente. "Ela era muito quietinha e fechada", disse a estudante Carolina Sampaio, de 13 anos, colega de classe de Natália na 8ª série do ensino fundamental. Amparados por parentes, os pais da adolescente, Luciano e Salete Araújo, não deram entrevista. Ninguém soube informar onde a família passaria a noite ou se iria se mudar da área onde aconteceu o deslizamento.

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