Prefeitura diz que Vale enviou à cidade água com querosene

Mineradora nega; espera por quatro garrafas de um litro de água em Governador Valadares ultrapassa 3h30

Marco Antonio Carvalho, Sérgio Tores e Leonardo Augusto, O Estado de S.Paulo

14 Novembro 2015 | 00h07

GOVERNADOR VALADARES - A prefeitura de Governador Valadares, no leste de Minas, acusou a Vale de entregar água com alto teor de querosene em uma das primeiras viagens dos vagões-tanque cedidos pela empresa para abastecimento da população. Em sua página no Facebook, a administração municipal informou ter descartado o líquido após a constatação de que não serviria para consumo. A Vale nega responsabilidade.

A utilização de vagões-tanque com capacidade de 60 mil litros por viagem integra o plano emergencial para o colapso no abastecimento após suspensão da captação no Rio Doce. A Vale informou ter comprado 14,5 milhões de litros de água mineral. Desse total, 10,187 milhões de litros serão entregues na cidade mineira. A quantidade adquirida assegura o consumo de ao menos 3 litros de água por habitante durante 12 dias.

Desde segunda-feira, 296 mil pessoas estão com torneiras secas. A prefeitura chegou a informar que a Vale teria admitido responsabilidade. Em nota, a Vale declarou ter coletado a água no local indicado em Ipatinga e transportado o líquido em vagões utilizados para combate a incêndios florestais. “Esses vagões só transportam água e nunca transportaram querosene”, reforçou a empresa.

A mineradora ressaltou que entregou a água em local acordado com a prefeitura, que se responsabilizou pela continuidade do transporte em caminhões-pipa, “o que não é de responsabilidade da Vale”.

Os vagões transportam 60 mil litros por viagem, mas a prefeita destacou que nesse ponto o acordo com a empresa não está sendo respeitado. “A presidente Dilma (Rousseff) determinou que os vagões da Vale não sejam oferecidos vazios, que cheguem aqui vagões cheios de água tratada, que a Vale busque onde tiver. Os vagões que estão aqui estão vazios.”

Filas. Ontem, a espera por quatro garrafas de um litro de água chegou a ultrapassar três horas e meia em Governador Valadares. Centenas de moradores formavam filas que davam voltas no quarteirão da Praça dos Esportes, no centro. A distribuição da água faz parte do trabalho de 55 homens do Exército.

O vigilante Sebastião Valério, de 60 anos, contou ter estocado água em casa desde o fim de semana passado. “Acho que ainda dura uns três dias. Depois, todos os dias vamos ter de enfrentar filas como esta”, disse.

Com o tempo quente, a tarefa de aguardar na fila representou esforço excessivo para alguns moradores. A cozinheira Romilda Monteiro, de 37 anos, não aguentou e desmaiou, sendo rapidamente atendida. “Faz tanto tempo que estou aqui que nem lembro a hora que cheguei”, disse. A prefeitura informou que pretende instalar caixas de 20 mil litros em pontos estratégicos para levar água potável à população. Ontem, os 38 caminhões-pipa enviados pela Samarco atenderam pontos prioritários, como hospitais e abrigos. O objetivo é elevar o número de veículos para 150.

Para complementar a demanda, a administração espera receber apoio de vagões-tanque da Vale, além da construção de uma adutora para captação de água em rios menores – a obra só deve ser concluída em um mês.

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