Prefeitura e Estado disputam conclusão de obras na Providência

Governo anunciou que iria terminar obras ao mesmo tempo que técnicos da prefeitura entravam na favela

Pedro Dantas, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2008 | 17h50

Após o embargo das obras no Morro da Providência por uso eleitoral pelo senador e pré-candidato à prefeitura do Rio, Marcelo Crivella (PRB-RJ), Estado e prefeitura, ambos com candidatos próprios na corrida eleitoral, disputam a conclusão das melhorias na favela. Nesta quarta-feira, 25, ao mesmo tempo em que o governador Sérgio Cabral Filho anunciava que concluiria as obras mediante um acordo com o Ministério das Cidades, a prefeitura entrava na Providência com técnicos da Secretaria Municipal de Assistência Social para socorrer famílias que ficaram sem morar devido à interrupção das obras.   "Não vou discutir a continuidade das obras, porque é uma questão política. Tenho o dever constitucional de socorrer famílias em risco. Para não desrespeitar o TRE-RJ, faremos tudo fora da esfera institucional, com o mutirão de moradores e doações da iniciativa privada", disse o Secretário Municipal de Assistência Social, Marcelo Garcia, referindo-se à proibição de doações de agentes públicos em ano de eleição.    Veja também: Rio organizará mutirão para concluir obras em morro Polícia diz ter identificado assassinos dos jovens da Providência Com obras embargadas, Exército deixa Morro da Providência Justiça Eleitoral embarga obras no Morro da Providência Crivela lamenta 'contaminação política' de obras na Providência Opine: o Exército pode cuidar da segurança pública?    Garcia prometeu que a Prefeitura acomodará em hotéis os moradores das 16 casas que ficaram sem telhado após a interrupção das obras. Ele estimou em R$ 5 mil o custo para colocar as telhas. Como a prefeitura não pode colocar suas máquinas na Providência em ano eleitoral, o secretário pediu que empresários façam doações do material utilizado na obra. Além das casas destelhadas, outras 14 residências em situação menos precária também estão inacabadas.   Entre as casas que ficaram sem telhado, está o barraco do aposentado Alberico Mesquita, de 67 anos. "Não tenho dinheiro para 'levantar' a casa. Estou sem água, uso o banheiro de serviço e a cozinha está cheia de escombros. Tenho esperança que a obra seja retomada", disse Alberico. Evangélico, ele defendeu o senador Crivella e disse que reza para Deus "abençoar o autor do projeto". "Ninguém nunca fez nada pelos necessitados aqui", afirmou.   Além das obras, os 75 empregos gerados pelo projeto Cimento Social também estão em risco. "A empreiteira nos proibiu de fazer o mutirão com as máquinas e o material da empresa, pois teme ser multada. Que (o TRE-RJ) casse a candidatura do Crivella, mas deixe a obra continuar. Não queremos política, queremos trabalho", declarou o encarregado de obras Alex Oliveira dos Santos, de 32 anos. Segundo ele, o maior temor dos trabalhadores é uma demissão em massa. "Alguns deles serão demitidos com dois dias de Carteira de Trabalho assinada. Como vão explicar isso na hora de uma entrevista para outro emprego?" questionou Santos.   Pai de 12 filhos, o auxiliar de pedreiro Francisco Emiliano da Silva, de 46 anos, era um dos mais apreensivos. Após cinco anos sem a carteira assinada, ele havia sido contratado há duas semanas para a obra onde ganhava R$ 655 mais vale-refeição no valor de R$180. "Agora não sei o que vou fazer. Vivi os últimos anos de biscates e a obra era uma chance de trabalhar sem gastar com transporte", disse Silva, que mora na área mais alta do morro.   TRE   A Associação dos Moradores do Morro da Providência e a empreiteira Edil, contratada para o Cimento Social, encaminharam uma petição ao juiz de fiscalização da propaganda eleitoral, Fábio Uchoa, que embargou as obras, pedindo a continuidade dos trabalhos ao menos para as 30 casas que precisam de emboço das paredes e conclusão do telhado. Por meio de nota, o TRE-RJ informou que o juiz requisitou informações complementares, como a identificação das casas e a especificação de quais serviços seriam feitos em cada uma delas. A partir dessas informações, o pedido será analisado.

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