Prefeitura proíbe forró em praça para preservar capela

Entre a cruz e a sanfona. Os moradores de São Miguel Paulista, na zona leste, vivem o dilema de decidir se a mais famosa praça da região é da fé ou da farra. Se o local deve justificar o seu nome oficial, Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra, ou abraçar o apelido, Praça do Forró. No último mês de março, a subprefeitura da região fez sua opção. A praça foi totalmente reformada. O palco que existia por lá, em forma de chapéu de couro, foi demolido - e os shows já estão suspensos. De acordo com o subprefeito Décio José Ventura, ?as duas destinações da praça eram incompatíveis?. A partir de agora, a estrela da praça é a Capela São Miguel Arcanjo, uma construção de 1622, tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional. A preservação dessa capela foi a principal justificativa para o fim do forró. ?Há alguns anos, um show de grande porte na praça fez com que algumas pessoas subissem no telhado da capela. Um absurdo. Foi o que nos fez pensar em mudar as coisas por lá?. Mas um hábito não se muda por decreto. Freqüentadores da praça estão divididos quanto à atitude da subprefeitura. ?Os shows aqui eram uma tradição. Um jeito de divulgar nossa cultura?, diz Jocemar da Silva, de 43 anos. ?Eu prefiro assim. A praça ficou mais gostosa, bonita e segura?, rebateu Claudiomar Lisboa, de 63. O presidente da Associação Amigos da Praça do Forró, o sanfoneiro Cícero do Norte, de 69 anos, não se agüenta de tanta tristeza. A praça é seu espaço de reunião e música desde 1965. ?Quiseram humilhar a gente. Mas eu tenho sangue nordestino. Não desisto. O bairro é nordestino, não foi justo. Foi preconceito da Prefeitura. As pessoas vão continuar chamando esse lugar de Praça do Forró?. Já o pároco da Catedral de São Miguel, o padre Geraldo Antônio Rodrigues, tenta contemporizar. ?Eu não tenho nada contra o forró. O forró é bom. Melhor do que essas músicas de bandido que tem por aí. O problema é que o palco não era só usado para shows. Ele era usado pra tudo. Tinha muito malandro por lá?. A polêmica sobre o fim da Praça do Forró chegou à Câmara. O vereador João Antônio (PT) diz que a medida foi ?autoritária?. ?Acabaram com uma tradição sem consultar a população. Deixaram a praça sem identidade.? O subprefeito Ventura garante que um novo local será destinado ao forró. ?Já temos um terreno em vista, às margens da Jacu-Pêssego. É o Parque Primavera, que, embora reconhecido como parque, ainda não funciona como tal. São 110 mil metros quadrados, com espaço para shows e estacionamento.? O lugar já foi um aterro sanitário. A Cetesb trabalha no local para saber se não há vestígios de contaminação ou gases tóxicos. Enquanto isso, o restauro da Capela São Miguel Arcanjo continua. A previsão é de que ela seja entregue em setembro. Uma equipe de arqueólogos trabalha na recuperação de instrumentos indígenas encontrados no entorno da capela. Os ?amigos do forró? também estão tocando a vida. Em uma provocação velada, abandonaram a praça e foram tocar em um restaurante localizado ao lado de uma Igreja Universal. ?Os pastores gostam do forró e tratam a gente muito bem?, disse Cícero do Norte.

Agencia Estado,

23 Abril 2007 | 09h10

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