Pregação anti-aborto vira placar em Guarulhos

Campanha de bispo levou a vitória de Serra na cidade, no 2º turno; ação de outros religiosos, pró e contra Dilma, também teve reflexo

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2010 | 00h00

A pregação do bispo de Guarulhos , d. Luiz Gonzaga Bergonzini, contra a descriminalização do aborto e os candidatos favoráveis a essa prática deu resultado em sua diocese.

A campanha contra Dilma Rousseff e seu partido, o PT, virou o jogo no município do primeiro para o segundo turno: o tucano José Serra, que havia obtido 220.441 votos em 3 de outubro, venceu de virada com 311.328 votos - ou 50,95% - no dia 31. Dilma, ganhadora no primeiro turno com 248.526 votos, ficou com 299.757 - ou 49,05% - na contagem final.

"Atribuo esses resultados ao trabalho que fiz, de conscientização dos católicos, pois preguei a bandeira contra Dilma e contra o PT por motivos ideológicos, porque não aceito o aborto nem o casamento de pessoas do mesmo sexo", disse d. Luiz Gonzaga, ao examinar o placar eleitoral do município de Guarulhos, cujo território coincide com o de sua diocese, que tem 36 paróquias.

O bispo promete ficar de "olhos e ouvidos bem abertos" para vigiar o comportamento da presidente eleita nos próximos anos, "já que ela se definiu como católica", ao visitar o Santuário Nacional de Aparecida, em 11 de outubro. "Vou apoiar o que Dilma fizer de certo, mas reclamar, se ela falar algo que contrarie os direitos humanos, a cidadania, a liberdade de expressão e a moral", adianta.

Jales. Na cidade de Jales, cujo bispo, d. Demétrio Valentini, criticou d. Luiz Gonzaga por causa do veto a Dilma, numa troca de cartas no âmbito do episcopado paulista que acabou repercutindo na imprensa, Serra ganhou com 15.753 votos (57,5%) ante 11.645 (42,5%) dados a Dilma na sede da diocese. Ela venceu, porém, nos números finais das 46 paróquias de Jales.

"Não pedi votos para ninguém, não mandei ninguém não votar em um ou outro candidato, porque os eleitores devem ter a liberdade de escolher", disse d. Demétrio. O bispo não indicou nomes, limitando-se a recomendar, em artigos sobre as eleições, que os católicos votassem conforme sua consciência. Como eleitor e cidadão, ele assinou um manifesto de religiosos, artistas, intelectuais e líderes comunitários em apoio a Dilma.

Outro bispo que se declarou a favor de Dilma, d. Luiz Carlos Eccel, de Caçador, em Santa Catarina, registrou a vitória de sua candidata na sede da diocese, embora Serra tenha sido o vencedor na soma total das paróquias de outros municípios. Caçador deu 19.833 votos (51,5%) a Dilma e 18.641 votos (48,45%) a Serra. Contando todos os municípios da diocese , Serra obteve 11.194 votos e Dilma ficou com 101.447.

"Caçador é uma região de latifúndios, com muitos sinhozinhos Malta e predominância de boias-frias", observou o bispo, ao explicar a derrota da petista em sua região. "Santa Catarina é um Estado retrógrado, que prefere as oligarquias e ainda tem saudades das cebolas do Egito", acrescentou d. Luiz Carlos.

O bispo de Caçador informou que, antes de denunciar "calúnias" contra Dilma e manifestar apoio aberto à sua candidatura, fez uma pesquisa sobre a situação do País e os avanços no governo Lula. "Chequei tudo, não foi uma posição cega", observou. "Dilma não foi a minha candidata no primeiro turno, não me vejam como um obcecado."

"Decepção". Na cidade de Anápolis (GO), onde Serra venceu Dilma com boa margem de votos - 99.738 ou 59,35% para o tucano e 68.316 ou 40,65% para a petista - o bispo emérito, d. Manoel Pestana Filho, festeja os números locais, mas lamenta o resultado da eleição. "Foi uma decepção humana, mas creio na Providência Divina e acho que Deus tem lá seus caminhos."

Anápolis, município governado pelo PT, "cujo prefeito tem feito uma administração excelente", na opinião de d. Manoel, abriga a Associação Pro- Vida, movimento que combate o aborto e também aconselhou os católicos a não votar em Dilma e em outros candidatos do PT.

Na Paraíba, cujo arcebispo , d. Aldo Pagotto, gravou um vídeo postado no YouTube, em 10 de outubro, denunciando o PT e sua candidata a presidente como abortistas, Dilma venceu nas urnas em João Pessoa, sede da arquidiocese, com 210,207 votos (58,47%) ante 149.331 (41.,53%) dados a Serra.

Resultados

50,95% é o porcentual de votos que Serra teve em Guarulhos no 2º turno

51,5% é o porcentual e votos de Dilma em Caçador (SC) no 2º turno, onde bispo a apoiou

46 é o total de paróquias de Jales em que Dilma venceu; na sede da diocese, Serra ganhou

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