''''Preservação de bairros horizontais é tendência''''

Entrevista[br]Paulo Bastos: Arquiteto e urbanista, ex-presidente do Condephaat[br]Ao mesmo tempo em que a verticalização chega às zonas residenciais, arquiteto vê movimentos pela proteção de casas

Renata Gama, O Estadao de S.Paulo

14 de dezembro de 2007 | 00h00

Um equilíbrio entre os padrões horizontais e verticais de residências na cidade é o que defende o arquiteto e urbanista Paulo Bastos, de 71 anos. Nascido e criado numa pequena vila do bairro operário do Brás, na zona leste, o ex-presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (Condephaat), testemunhou a época em que as crianças ainda brincavam nas ruas de São Paulo e hoje apóia movimentos de preservação de casas e vilas nos bairros. Essas iniciativas, segundo ele, buscam garantir a boa convivência entre os novos edifícios e as moradias que já existem, além de evitar que a paisagem urbana se desconfigure ainda mais. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado: Em São Paulo, é possível notar dois movimentos simultâneos provocados pelo mercado imobiliário. Um, a verticalização dos bairros. Outro, a ida de condomínios horizontais e loteamentos para municípios vizinhos. Nesse cenário, qual o futuro das casas na cidade?Acho que assim como há tendência à verticalização, há também uma tendência à preservação dos bairros residenciais com padrão horizontal. Sejam eles as zonas estritamente residenciais, como as dos chamados bairros Jardins, de loteamentos da (Companhia) City, ou de bairros como a Lapa ou a Vila Romana, onde existe um movimento muito forte contra a verticalização, pela preservação de vilas, para não deixar que elas sejam vendidas, destruídas. Então, há duas vertentes de interesses e de demanda pública. Os apartamentos, de um lado, por questão de segurança, ou porque são baratos - embora muito ruins como planta via de regra - mas são baratos, com financiamentos a longo prazo que atendem à população de baixa renda. E há a preservação das casas, de outro. Então, haverá um equilíbrio?Eu acho que tem de haver e há em todas as cidades do mundo um equilíbrio entre o padrão horizontal e o vertical de habitação. Mas há essa anomalia em São Paulo, onde tudo é verticalizável, e permite a urbanização paliteiro que é um pequeno terreno com prédio alto, onde quem olha de uma janela vê uma outra janela, de outro prédio. Você não tem paisagem para olhar. A Serra da Cantareira desapareceu. Da cidade, você não vê porque fica enclausurado nessa densidade volumétrica. Você olha para bairros como a Vila Madalena, que foi bairro residencial de classe média, média baixa, muito agradável, com uma topografia muito acidentada, e lá hoje estão sendo construídos prédios altíssimos, com uma densidade volumétrica grande. Eu moro, por exemplo, no Alto de Pinheiros. Nós temos uma associação que luta desde 1977 contra a alterações no zoneamento, porque quer manter o padrão horizontal. E nas bordas de Alto de Pinheiros o pessoal vende adoidado edifícios dando como grande ganho a paisagem do nosso bairro, que nós criamos, plantamos, mantemos. Essas são as contradições urbanas. Ali na Vila Madalena, ainda há algumas vilinhas e casas escondidas. Elas sobreviverão?Essa é uma questão que teria de ter legislação que compete ao Plano Diretor, que precisa estabelecer equilíbrio entre zonas horizontais e zonas onde se pode adensar mais. A solução para manter esses bairros é elitizar, cobrando IPTU maior.É mais saudável morar em casas?Sem a menor dúvida. Neste padrão que nós temos de habitação, principalmente. Os condomínios com grandes áreas de lazer não repetem o efeito paliteiro que o senhor mencionou. Eles são melhores, do ponto de vista urbanístico?Ambientalmente, para a cidade é melhor, porque tem visual mais amplo, arborização e área permeável maiores. Agora, cultural e socialmente, não. É algo que se fecha e volta as costas para a cidade. Nós urbanistas temos perseguido, não sei se utopicamente, a ampliação dos espaços públicos, o alargamento de calçadas, praças, parques. Porque o que a cidade te oferta de mais importante são os locais de troca, de encontro, de eventos, de solidariedade, enfim. Quando garoto, eu tenho 71 anos, vivi no Brás, a rua era um espaço público. Inclusive não tinha muito automóvel. Eu morava numa vila, numa casinha muito pequena. A criançada brincava um pouco na vila, mas depois ia para a rua, andar de bicicleta, patins, patinete, jogava bola, tudo na rua, que era um espaço sem praça. Quando a rua vira um local de perigo - primeiro tomada como local de estacionamento, segundo por uma corrente de tráfego muito perigosa -, você precisa de novos espaços públicos reservados para pedestres.Em São Paulo ainda há bairros onde existe essa cultura de rua?Eu vou dar um exemplo muito estranho. Tive informações de uma casa que foi assaltada em Alto de Pinheiros, e os moradores foram retidos por um tempo e ouviram os ladrões dizendo que era muito fácil assaltar ali, porque as pessoas pensam que estão no interior. E elas ficam no portão de casa conversando com a porta aberta. Isso acontece também em outros bairros como Santo Amaro, no Pari, no próprio Brás. Há vários locais onde tem moradia antiga ainda, onde a porta dá na rua e o pessoal fica conversando na janela. Então, você conhece o farmacêutico, o comércio de rua, é tudo muito ligado, ninguém é anônimo. Mas a presença dos shopping trouxe a deformação disso em alguns lugares. Mas parece que os shoppings substituíram o espaço da rua, da praça. Tenho a impressão que as pessoas muitas vezes vão só para andar e eventualmente compram alguma coisa que lhe chama a atenção na vitrine...Você tem razão. Isso reflete a falta de espaço público. No interior, em algumas cidades, ainda tem a praça, onde o pessoal fica dando volta. Por quê? Você vai se mostrando. Os namoricos podem começar, os fuxicos também. Ou seja, as pessoas têm identidade. Mas numa metrópole como São Paulo, elas fazem muito isso no shopping ou no clube. As pessoas procuram o espaço gregário sem intervenções violentas e de trânsito para poderem reconstituir um pouco dessa vida aldeã, da qual a gente ainda não se desfez e não sei se se desfará. O paulistano ainda é aberto a se relacionar com o vizinho?No Alto de Pinheiros, onde moro há 40 anos, todo mundo se conhece, mas não tem mais isso de um visitar a casa do outro, como havia. E alguns estão elevando seus muros, em contradição com o projeto do próprio bairro. Mas a gente se conhece, se fala, não tanto quanto gostaria. Pára pra conversar na calçada, mas não tem mais aquilo que conheci no Brás, onde até festa de casamento se dava na rua.Nos novos loteamentos que surgem em cidades vizinhas, esses costumes podem ser resgatados?Eu acho que as pessoas têm necessidade desse contato. A menos que a vida, com a progressão que está tendo, aliene tanto as pessoas que elas fiquem presas mais a seu computador, à internet. Eu acho que a tendência humana não é de se isolar e também não é o oposto disso - que também ocorre hoje -, de se juntarem 500 pessoas fechadas numa balada, ou atrás de um trio elétrico. Isso não tem o caráter de humanidade que precisaria ter. Mas tenho esperança de que em algum momento se retome o nível de contato humano que a gente foi perdendo.

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