Presidente da Câmara usou avião de plano de saúde para ir a reunião do PT

Marco Maia disse que vai pagar voo com o próprio salário porque ''ganha bem''; em junho, deputado havia usado outro avião particular para assistir a jogo da seleção brasileira em Goiânia e depois ir a Porto Alegre, serviço que custaria até R$ 45 mil

Leandro Colon e Beto Barata / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2011 | 00h00

O presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT-RS), usou aviões particulares para viajar nos fins de semana pelo País. No sábado passado, ele embarcou em um avião e um helicóptero da Uniair, empresa de transporte aéreo da Unimed do Rio Grande do Sul - seu reduto eleitoral -, para participar de eventos partidários do PT nas cidades gaúchas de Erechim e Gramado.

Procurado pelo Estado ontem, cinco dias após a viagem, Marco Maia admitiu que o voo não foi pago. Questionado sobre a origem do dinheiro que vai cobrir o gasto, afirmou que bancaria a viagem com o próprio salário. "Eu ganho bem", disse.

Na entrevista gravada, Maia garantiu que o voo do fim de semana no avião da Unimed foi o primeiro fretado por ele no ano. "Foi a primeira vez que utilizei um voo particular", disse.

Horas depois, o presidente da Câmara foi obrigado a mudar a versão após a reportagem confirmar que ele também viajara num avião particular, no dia 4 de junho, de Brasília para Goiânia, para assistir ao jogo da seleção brasileira de futebol contra o time da Holanda. De lá, seguiu na mesma aeronave para Porto Alegre. "Foi um voo privado dele como cidadão", respondeu a assessoria de imprensa do presidente.

Num primeiro momento, Maia afirmou "não se lembrar" do nome da empresa contratada nem o valor pago pelo voo do jogo da seleção. Diante da insistência da reportagem, informou que o serviço fora prestado pela Ícaro Táxi Aéreo.

Segundo a empresa, o trecho Brasília-Goiânia-Porto Alegre voado por Maia custa entre R$ 30 mil e R$ 45 mil, a depender do avião. Na declaração de bens ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de 2010, Maia disse ter um patrimônio de R$ 342 mil. Ou seja, o pagamento do frete do avião corresponderia a aproximadamente 13% de seu patrimônio.

Salário. As prestações de conta da verba indenizatória (destinada ao custeio da atividade parlamentar) de Maia não registram neste ano o pagamento de aeronaves. Sobre o dinheiro usado nos deslocamentos, o presidente da Câmara disse que banca as despesas aéreas com o salário bruto de R$ 26,7 mil.

Ontem, após admitir que a viagem do sábado passado ainda não havia sido paga, assessores do deputado relataram ao Estado a preocupação em conseguir um recibo com a data da viagem, dia 20 de agosto.

Naquele dia, o presidente da Câmara usou o avião da Unimed, prefixo PT-WZC, para fazer o trecho de ida e volta entre Porto Alegre e Erechim e, depois, um helicóptero para viajar até Gramado. No dia 17 de fevereiro, dias depois de ser eleito presidente da Câmara, Maia recebeu em seu gabinete o assessor da presidência da Unimed Brasil, José Abel Ximenes, que dirige a entidade em Tocantins e Goiás.

No site da Câmara, são listados pelo sistema de busca cerca de 250 projetos de lei sob análise dos parlamentares referentes a planos de saúde. Boa parte refere-se a fiscalização dos planos, ressarcimento de despesas decorrentes de atendimento médico e coberturas obrigatórias.

O site pessoal de Maia destacou o encontro dele com o dirigente da Unimed. Ao reproduzir texto do portal da Câmara, afirmou que, "na ocasião, Ximenes entregou ao parlamentar a publicação Ações Político-Institucionais da Unimed Brasil - Agenda 2011, na qual estão expostas as ações que devem ser desenvolvidas pela instituição neste ano".

Na viagem de sábado passado, Maia foi a Erechim no avião da Uniair/Unimed para encontrar prefeitos e vereadores da região que formam a Associação dos Municípios do Alto Uruguai e visitar as obras da Universidade Federal da Fronteira Sul.

O prefeito da cidade gaúcha, Paulo Alfredo Polis (PT), recepcionou o presidente da Câmara dos Deputados.

De acordo com texto publicado no site do presidente da Câmara, na reunião os políticos "agradeceram a Maia pela indicação de emendas parlamentares ao orçamento de 2011, as quais contemplam 16 cidades da região e somam R$ 2,6 milhões".

Logo depois, o deputado encontrou-se com cerca de mil militantes e dirigentes petistas, entre eles o presidente do partido em Erechim, Claudionor Bernardi. De Erechim, o presidente da Câmara voltou para Porto Alegre, de onde partiu de helicóptero para Gramado.

A direção da Uniair foi procurada pela reportagem e informada do teor do assunto envolvendo o deputado. Mas nenhuma resposta foi dada até o fechamento desta edição.

VOANDO ALTO

VOANDO ALTO

Polêmicas sobre políticos e transporte aéreo

Mário Negromonte (PP-BA)

Ministro das Cidades

Pagou despesas de empresas de táxi aéreo - que foram contratadas durante a sua campanha nas eleições do ano passado - com dinheiro da Câmara

Paulo Bernardo(PT-PR)

Ministro das Comunicações

Gleisi Hoffmann (PT-PR)

Ministra da Casa Civil

Segundo a revista Época, o casal teria sido visto em avião de uma construtora que teria financiado a campanha de Gleisi ao Senado e que mantém negócios com o governo federal. Em nota, Bernardo admitiu que utilizou aeronaves de "várias empresas" no ano passado

José Sarney (PMDB-AP)

Presidente do Senado

Usou um helicóptero da Polícia Militar do Maranhão para visitar sua ilha particular em junho e julho deste ano, segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo. O presidente do Senado admitiu ter usado o helicóptero e, em nota, disse ter "direito a transporte de representação em todo o território nacional"

Wagner Rossi (PMDB-SP)

Ex-ministro

Voou no jatinho da empresa Ourofino Agronegócio em pelo menos duas ocasiões no ano passado. Caso foi o estopim para sua saída da Agricultura

Sérgio Cabral (PMDB-RJ)

Governador do Rio

Em junho, Sérgio Cabral foi à Bahia, em um jatinho do empresário Eike Batista, para a festa de Fernando Cavendish, dono da Delta Construções

Cid Gomes (PSB-CE)

Governador do Ceará

Em janeiro, foi "de carona" aos EUA em avião do empresário Alexandre Grendene, dono da indústria de calçados que leva o seu sobrenome

Tasso Jereissati (PSDB-CE)

Ex-senador

Em 2009, foi acusado de usar recursos da sua cota de passagens aéreas no Senado para fretar jatinhos. O procedimento não era permitido pela Casa

Ronaldo Sardenberg

Ex-ministro de FHC

Entre 1996 e 1998, o ex-ministro da Ciência e Tecnologia foi acusado de usar aviões da FAB para viagens particulares a Fernando de Noronha

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