Presidente da Infraero critica privatizações de aeroportos

Em início de obras do Terminal 2, Sérgio Gaudenzi também anunciou mais investimentos para o Galeão

Felipe Werneck, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2008 | 19h10

Depois de posar para fotografias segurando uma espátula e dar início a obras de ampliação do Terminal 2 do Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão), orçadas em R$ 63 milhões, o presidente da Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero), Sérgio Gaudenzi, anunciou investimentos de mais R$ 537 milhões nos dois terminais até 2010 e criticou a proposta de privatização do aeroporto, em estudo no governo federal. "Tenho posição claramente contrária à privatização. Não recuo porque acho que estou certo." Ele disse que não quer criar nenhum constrangimento "sendo divergente". "É uma questão de ponto de vista. O meu cargo está sempre à disposição do presidente. Se houver necessidade, não há problema."   Na presidência da Infraero desde agosto do ano passado, Gaudenzi relatou ter "poucos aliados" na posição contrária à privatização, defendida pelo governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), que já comparou o aeroporto a uma "rodoviária de quinta categoria". Vinculado ao Ministério da Defesa, Gaudenzi disse que os poucos aliados estão "mais no setor da Defesa". "O casamento (com militares) é muito forte", declarou. Político do PSB, o presidente da Infraero já prepara o seu futuro. Disse ter sido sondado para tentar voltar à Câmara dos Deputados na próxima eleição. Ressalvou, porém, que ele próprio deixará o cargo, caso decida concorrer a uma vaga.   Para justificar sua posição, Gaudenzi disse que, dos 67 aeroportos administrados pela Infraero no País, apenas 15 dão lucro, entre eles o Tom Jobim - com R$ 16 milhões por mês, o aeroporto representa cerca de 12% do faturamento da empresa. Ele defende a transformação da Infraero em empresa de capital aberto, proposta que também está em estudo no BNDES, responsável pela análise da possível privatização.   O presidente da Infraero cita a Petrobrás como modelo. Para ele, o investimento de R$ 600 milhões previsto até 2010 no Tom Jobim - metade da Infraero, metade do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) - poderia ser incorporado ao valor do aeroporto, caso o governo decida privatizá-lo. "Quanto vale o Galeão: R$ 13 bilhões, R$ 15 bilhões? Acho que ninguém vai comprar. Vão fazer concessão? Aí a gente faz." Em seguida ele declarou, irônico: "Se eu tivesse muito dinheiro, fazia uma proposta para comprar."   Na entrevista, em uma ala de 63 mil metros quadrados que estava fechada havia dez anos, desde a inauguração do atual Terminal 2, Gaudenzi fez vários elogios ao Tom Jobim. Disse que é "um dos mais bem concebidos do mundo" e o único do País capaz de receber o Airbus 380, por conta de sua pista de 4 mil metros. Ele admitiu que houve um processo de "esvaziamento" nos últimos anos e disse que a obra era uma "obrigação". "Vamos atingir 20 milhões de passageiros por ano. O Galeão era o sétimo e hoje é o quarto do País." Gaudenzi falou até em construir mais 2 terminais. "Aguardamos decisão do governo federal (sobre a eventual privatização), mas não podemos deixar de fazer o nosso trabalho."   Paulo Octávio   Aparentemente sob cobiça de partidos após as eleições, a Infraero possui orçamento anual de R$ 2 bilhões, 25 mil funcionários (dos quais 14 mil são terceirizados) e mais 400 cargos comissionados. Gaudenzi assinou ontem a ordem de serviço para dar início às obras de ampliação e reforma do Terminal 2. A pedido de assessores, um funcionário da empresa Paulo Octávio Investimentos Imobiliários Ltda, do vice-governador do Distrito Federal, que fará a obra, entregou uma espátula que usava para cimentar tijolos na mão de Gaudenzi.   Aparentemente constrangido, depois de tentar recusar o mesmo pedido, o secretário de Transportes do Rio, Julio Lopes, também segurou a espátula e posou para fotografias como se estivesse trabalhando de peão. Depois da entrevista de Gaudenzi, ele comentou: "A posição do governo federal é muito importante, mas representa um quarto do que precisa ser feito", disse.   "A posição de Gaudenzi é mais do que defensável no papel de presidente da Infraero, mas a visão do governador Cabral é a de que o aeroporto pode funcionar melhor se concedido à iniciativa privada." Sobre a avaliação de que o Tom Jobim é um dos poucos que dão lucro, o secretário disse que uma das exigências da concessão pode ser a de uma contribuição para o conjunto de aeroportos do País. "O BNDES está encarregado de equacionar o processo."

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