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Presídios do Sudeste vivem clima de tensão diante da possibilidade de conflitos

Parentes e detentos de cadeias de SP e do Rio temem alastramento da guerra entre facções

Constança Rezende e Juliana Diógenes, O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2017 | 21h33

No primeiro dia de visita de familiares no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, desde que veio à tona a crise no sistema penitenciário, o clima foi de tensão e preocupação. A questão que dominava a conversa dos parentes do lado de fora ontem era uma só: “Será que o mesmo que aconteceu no Amazonas e em Roraima também pode acontecer aqui?”.

Após a visita, parentes dos presos disseram que, embora os detentos tenham relatado tranquilidade, há apreensão sobre a possibilidade de alastramento da guerra entre facções para a região sudeste. “A guerra está declarada. Que vai haver retaliação, isso vai. Embora tenha acontecido em outros Estados, querendo ou não o sistema penitenciário é um só”, disse o irmão de um detento.

Irmã de um preso, a servente escolar Érica Poliana de Barros, de 34 anos, pegou um ônibus anteontem em Minas Gerais para visitar o parente e seguiu direto para a rodoviária em seguida. Ele está preso há dois meses, e essa foi a primeira vez que Érica viu o irmão. “Assim que fiquei sabendo das mortes e das fugas em outros presídios, quis visitá-lo para saber como ele está.”

Segundo familiares, o CDP de Pinheiros é dominado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), mas também possui membros do Comando Vermelho (CV). Os dois grupos se separaram e, agora, o receio é de que briguem entre si. Mas, ainda de acordo com os parentes, a tensão é maior nos presídios do interior do Estado.

No Rio, o clima de tensão nos presídios, em meio à guerra declarada entre a principal facção fluminense (o Comando Vermelho) e o PCC, se agrava pela superlotação, pelas más condições das instalações e pela falta d’água em uma época em que os termômetros giram em torno de 40 graus na cidade.

O Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, na zona oeste, que concentra os principais presídios do Estado e onde está preso o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB), tem 50.555 presos, 85% acima da capacidade de 27.242 vagas. Do total de detentos, 23.313 são presos provisórios, de acordo com a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap).

Um vídeo divulgado pela página de utilidade pública no Facebook “Bangu ao Vivo”, aparentemente gravado pelos próprios presos, mostra internos com panos brancos para tapar o rosto e o corpo, relatando condições precárias. Um preso faz o relato, contando que há apenas uma única garrafa d’água para todos – suja e barrenta, que seria fornecida por caminhões-pipa. A mesma água também precisa ser usada para beber e limpar as privadas no chão, onde os presos urinam e defecam, diz o detento. As paredes mostradas no vídeo também estão sujas, repletas de lodo.

A Seap admitiu o problema no abastecimento de água e disse que foram enviados carros-pipa para o complexo. A Cedae, empresa responsável pelo serviço de água e esgoto no Rio, culpou o aumento da demanda pela interrupção no abastecimento. “Nos últimos dias, pelo forte calor, houve um aumento de consumo em cerca de 30% no local. Além disso, uma tentativa de furto de água provocou um vazamento na adutora que abastece o complexo penitenciário.” A Cedae prometeu que até a noite de ontem o abastecimento seria restabelecido. O Estado apurou com servidores que trabalham no sistema penitenciário fluminense que é comum a falta d’água no local.

Rixa. O clima está tenso em Bangu desde a semana passada, por causa da rivalidade entre presos da Penitenciária Lemos de Brito, conhecida como Bangu 6. Criminosos do Terceiro Comando Puro (TCP) causaram tumulto ao forçarem a porta do pátio de visitas, assustando familiares de presos ligados às milícias e ex-policiais, que ficam em outra galeria. O TCP busca se isolar das demais facções.

Neste domingo, 8, o clima foi de tensão do lado de fora do complexo penitenciário. Um intenso tiroteio em favelas próximas assustou familiares que aguardavam para a visita. A reportagem do Estado presenciou pelo menos três sequências de tiros, por volta das 11h30. O guarda da guarita da entrada recomendou que as pessoas que aguardavam se abrigassem. A espera é numa área de triagem externa, próximo da cancela que controla o acesso de veículos. “Cuidado, porque os tiros às vezes chegam aqui embaixo”, avisou o funcionário aos visitantes, a maioria mulheres. As pessoas então buscaram abrigo próximo às paredes.

O guarda disse que tiroteios são comuns na região, informação corroborada por outro servidor do sistema penitenciário. A assessoria de imprensa da Polícia Militar informou que o 14.º Batalhão, em Bangu, não foi acionado por causa de “disparos de arma de fogo” durante a manhã de ontem.

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