Preso falso rabino acusado de tortura

Procurado em Israel, criminoso incitava violência contra crianças

Vannildo Mendes e Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

05 de junho de 2008 | 00h00

Apesar de não falar português, o falso rabino Elior Noam Hen, acusado de tortura e incitação à violência contra menores, driblou a Polícia Federal e a Interpol por 45 dias. Disciplinado, passava privações para não se expor e se misturava a outros judeus ortodoxos no Bom Retiro, em São Paulo, para não ser apanhado. A prisão de Elior, cidadão israelense, para fins de extradição, foi expedida em 25 de abril pelo ministro Carlos Ayres Britto, do STF.Foi quando começou uma caçada que, em algumas ocasiões, incluiu fugas cinematográficas. Ele só foi preso na noite de anteontem, na esquina das Ruas Júlio Conceição e Nilton Prado, de quipá na cabeça e segurando um terço na mão. "Hoje o Brasil não é mais paraíso, mas fim de linha para criminosos internacionais", comemorou o chefe da Interpol no Brasil, delegado Jorge Pontes. Considerado o criminoso mais procurado pelo governo de Israel, Elior estava foragido desde 2006 e já havia driblado as autoridades de Espanha e Canadá. "Em caçadas humanas desse tipo, é normal levar mais de um ano", disse o delegado. Seus crimes causaram comoção em Israel. Elior, de 26 anos, chegou ao Brasil em 27 de março, vindo do Canadá. Levantamento da inteligência indicou que ele recebia proteção de outros judeus ortodoxos. A PF fez várias tocaias, mas ele sempre mudava de endereço. No fim de abril, cercado na sinagoga, Elior se distanciou da mulher e dos filhos, como se não os conhecesse, e se misturou a outros 70 religiosos, que lhe deram cobertura discreta. Nesse momento, a polícia apreendeu os documentos do falso rabino com a mulher. Sem passaporte ou qualquer tipo de documento, a fuga de Elior tornou-se dramática e ele acabou rapidamente capturado.VINAGRE FERVENTEElior é acusado pelas autoridades judaicas de prática de tortura e incitação à violência contra menores para "expulsar o demônio de seus corpos". No relatório do governo de Israel à Interpol, há uma lista extensa de maus-tratos, que incluem queimaduras de terceiro grau com vinagre fervente, espancamentos, marteladas na cabeça, asfixia e outros suplícios que causavam mutilações e lesões corporais graves em crianças. O falso rabino convencia famílias religiosas a praticarem seus métodos violentos de educar e punir filhos de até 3 anos. A PF não encontrou sinais de maus-tratos nos filhos de Elior, levados para fora do Brasil pela mãe há três dias.O foragido será levado para a carceragem da PF em Brasília, onde ficará à disposição do STF até o julgamento do seu pedido de extradição, que deve ser encaminhado nos próximos dias pelo governo de Israel. A prisão surgiu de um trabalho conjunto da Interpol, com as polícias federais do Brasil, de Israel e do Canadá. Ele sempre se apresentava como rabino. "Mas é preciso deixar claro que ele não tem formação rabínica. É só alguém que tentou se passar como tal", disse o presidente executivo da Federação Israelita do Estado, Ricardo Berkiensztat. "É bom esclarecer também que ele não foi líder de seita nenhuma em São Paulo. Ele veio para cá foragido e freqüentou apenas uma sinagoga." Segundo a Interpol, Elior freqüentava a sinagoga Kehal Chassidim, de orientação ultra-ortodoxa, na Rua Mamoré. Ontem à tarde, a sinagoga estava fechada e, segundo uma funcionária, os dois rabinos locais estavam "em viagem para o exterior". TOCAIASegundo o delegado Moacir Moliterno, chefe da Interpol de São Paulo, 12 agentes se revezaram nos últimos 30 dias, vigiando as ruas do Bom Retiro. "Quando o pegamos, ontem (anteontem) à noite, nem conseguimos ver o imóvel onde ele se escondia. Deixamos que ele caminhasse 100, 200 metros e, quando tivemos certeza de sua identidade, o abordamos", afirma. Na carceragem, na Superintendência da Polícia Federal, na Lapa, Elior permaneceu calado o tempo todo - e parecia não entender o que os intérpretes falavam, em inglês ou hebraico. "Foi a estratégia que ele adotou, de se fazer de desentendido de tudo", disse Moliterno.Segundo a Interpol, uma das preocupações era de que o falso rabino matasse a mulher e os três filhos e se suicidasse. "Recebemos informações de entidades internacionais de que havia o risco de isso ocorrer", disse Moliterno. Moradora de um apartamento na Rua Mamoré, a mulher de Elior foi localizada em 26 de maio. Após passarem por exames de corpo de delito, ela e os filhos foram liberados - pegaram um vôo para Bruxelas, com conexão em Lisboa, no dia 28, quando o cerco contra o marido já era praticamente insustentável.

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