Preso na Hurricane, juiz Carreira Alvim pretende se licenciar

O desembargador José Eduardo Carreira Alvim, que esteve preso e foi denunciado pelo procurador da República, Antônio Fernando de Souza, como envolvido na quadrilha que explora o jogo no Rio, vai se afastar de suas funções no Tribunal Regional Federal da 2ª Região (Rio de Janeiro e Espírito Santo) e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde é professor de Direito Processual. Os pedidos deverão ser oficializados nesta terça-feira, 24, segundo comentou o próprio desembargador em conversas nesta segunda, 23. O seu advogado de defesa, Luiz Guilherme Vieira, foi um dos que sugeriu ao desembargador o afastamento "por falta de clima". Carreira Alvim acha que só poderia voltar a dar aulas depois que reunisse seus alunos em um auditório para explicar como o seu nome apareceu no relatório da Polícia Federal. Ele deve entrar em férias no TRF. O outro desembargador também acusado na mesma investigação, José Ricardo de Siqueira Regueira, já estava de férias ao ser preso no dia 13. Clima tenso no TRF A decisão de Carreira Alvim resolverá um problema para o próprio TRF. O clima dentro do Tribunal já não era bom desde 1º de março, quando da eleição da nova diretoria. Na sessão, derrotado por 19 votos a 5, Carreira Alvim acusou o presidente eleito, Joaquim Antônio Castro Aguiar, de ter beneficiado, em 2002, seu filho, o engenheiro Ricardo Aguiar, com um edital específico para o ingresso do rapaz na Faculdade de Direito da Uerj, sem vestibular. Durante a sessão, Alvim denunciou também a existência de grampos no seu gabinete, que tinha descoberto duas semanas antes da eleição. Ele acreditava que os grampos teriam sido colocados por conta da disputa para a presidência, responsabilizando o então presidente da do TRF, Frederico Gueiros. Ele ignorava que a escuta tinha sido colocada pela Polícia Federal, com autorização do ministro do Supremo Tribunal federal (STF), Cézar Peluso. Castro Aguiar disse, na ocasião, que resolveu se candidatar depois que foi intimidado por uma visita (não revelou o nome) que recebeu no gabinete, ameaçando divulgar um dossiê sobre a história do ingresso do seu filho na Faculdade de Direito, caso ele disputasse a eleição com Carreira Alvim. "Ou me candidatava ou vestia a carapuça", desabafou. Segundo ele, não houve irregularidade, pois o filho já era formado em engenharia pela mesma Universidade e teria cumprido as exigências fixadas em edital da reitoria. Estratégia de defesa Nas conversas que vem tendo depois de ter sido solto, Carreira Alvim criticou a imprensa, fala em escrever um artigo para se defender e tem admitido até mesmo denunciar as "arbitrariedades" contra ele a organizações internacionais dos Direitos Humanos. O seu advogado, Luiz Guilherme Vieira, é de opinião que o desembargador se manifeste só após a apresentação de sua defesa prévia junto ao Supremo Tribunal Federal (STF). Alvim, desde que chegou ao Rio no domingo à tarde, está hospedado na casa de parentes. Ele preferiu deixar sua casa (um apartamento de 290 metros quadrados, no condomínio Atlântico Sul, na Barra da Tijuca), aonde foi preso no dia 13. Como os outros 24 presos durante a Operação Hurricane, o desembargador também ficou sem o celular, apreendido pela Polícia Federal. Bloqueio de contas O Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou o bloqueio de contas dos 25 detidos e de seus familiares. O Estado apurou que pessoas ligadas à máfia do jogo já fizeram três tentativas de sacar R$ 4 milhões em agências bancárias do País. A PF divulgou que já sabe que ao menos um dos presos possui conta bancária no exterior, e há a suspeita de que outros quatro envolvidos no esquema sejam beneficiários de recursos depositados em paraíso fiscal. A operação Hurricane teve início em 13 de abril, quando 25 pessoas foram presas nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e no Distrito Federal, entre empresários, advogados, policiais civis e federais, magistrados e um membro do Ministério Público Federal, Paulo Medina. O objetivo é desarticular uma organização criminosa que atuava na exploração do jogo ilegal e cometia crimes contra a administração pública. As investigações sigilosas duraram um ano, ordenadas pelo ministro Cezar Peluso, do STF. Na operação, a PF apreendeu 30 carros de luxo, uma moto e uma grande quantidade de dinheiro - foi necessário um carro-forte para o transporte até uma agência da Caixa Econômica Federal. A máfia dos caça-níqueis comprava sentenças judiciais favoráveis para manter as casas de bingo em funcionamento no País, movimentava altas somas de dinheiro desde 2001, pelo menos. Nos últimos seis anos, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) produziu sete relatórios especiais sobre movimentações atípicas, envolvendo 80 pessoas, que movimentaram R$ 230 milhões. Dessas 80 listadas, 17 estão presas na PF de Brasília.

Agencia Estado,

23 Abril 2007 | 18h51

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