Preso o número 2 da milícia da Favela do Batan, no Rio

Segundo delegado do Draco, miliciano David Liberato de Araújo participou da tortura aos jornalistas do 'O Dia'

Pedro Dantas, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2008 | 15h37

Policiais da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas do Crime Organizado (Draco) prenderam nesta quarta-feira, 4, o primeiro miliciano acusado de envolvimento na tortura da equipe de reportagem do jornal O Dia e de um morador na Favela do Batan, em Realengo, na zona oeste do Rio, no dia 14 de maio. De acordo com o delegado-titular da Draco, Cláudio Ferraz, as vítimas identificaram e investigações confirmaram que o detento David Liberato de Araújo, de 32 anos, conhecido como 02, participou da sessão de tortura.   Veja também: Deputados pedem apuração de tortura a jornalistas no Rio Moradores confirmam prática de tortura em favela do Rio   O chefe da milícia na Batan, que comandou a tortura, foi identificado como o inspetor da 22ª Delegacia de Polícia da Penha, Odinei Fernando da Silva, de 35 anos, também conhecido na favela como 01, Dinei ou Águia, que está foragido. "Temos informações que eles lideram a milícia (na Batan) e os repórteres informaram que, pelo tipo físico, pela postura e outras informações que constam no depoimento, eles participaram da tortura", disse o delegado.   Os dois milicianos identificados pela polícia foram criados na Favela do Batan. Araújo cumpria pena em regime semi-aberto na Colônia Penal Agrícola de Maricá (região metropolitana) por receptação, após comprar um carro roubado, e também respondia a uma acusação por furto. "Não fiz nada disso que estão falando. No dia em tudo aconteceu eu estava no presídio.", disse o acusado aos jornalistas. De acordo com o delegado, ele atuava como miliciano nos dias em que saía da penitenciária. O acusado foi transferido para o regime fechado no Presídio Plácido de Sá Carvalho, em Bangu.   O delegado disse que a divulgação da matéria no domingo passado atrapalhou a prisão do inspetor Dinei, apontado como o chefe da milícia. "Tínhamos conhecimento que a peculiaridade do envolvimento dos jornalistas no caso pressionaria e por isso aceleramos ao máximo as investigações", disse Ferraz. O policial já sabia do mandado de prisão e não compareceu ao trabalho hoje na 22ª DP.   O delegado reconheceu que relatórios da Anistia Internacional haviam alertado o governo do Rio sobre a crueldade do inspetor quando era agente penitenciário. "Ele se envolveu em um caso de homicídio e em diversas outras violências contra presos", revelou o policial. O chefe de Polícia Civil, Gilberto Ribeiro, informou que Dinei foi reprovado no concurso para a Polícia Civil, mas conseguiu assumir o cargo por meio de uma liminar. Ribeiro pediu critérios mais rígidos ao Judiciário na concessão das liminares. As investigações revelam que a milícia agia com extrema violência contra os desafetos.   A polícia apura as denúncias sobre a utilização do Campo de Treinamento do Exército em Gericinó, localizado ao lado da Favela do Batan, como um cemitério clandestino pelos milicianos. "Estamos em parceria com o Exército para constatar esta possibilidade do uso deste terreno enorme como área de desovas", confirmou o delegado.   Ferraz não descarta a prisão de mais policiais civis e militares ou de pessoas ligadas ao Poder Legislativo e disse novamente que um dos torturadores se identificou como assessor parlamentar do deputado estadual Coronel Jairo (PSC). "A repórter identificou a voz dele quando estava com a cabeça coberta por um saco plástico. Ele comentava com os outros algozes que tinha dado uma cantada nela na favela", contou o delegado.O deputado estadual negou qualquer envolvimento de assessores dele com milicianos.   Sobre a sessão de tortura, o delegado revelou que o objetivo dos criminosos era a busca de informações. "Eles utilizaram a técnica de não deixar marcas até para evitar um eventual e futuro questionamento. As técnicas de tortura eram compatíveis com a intenção de não deixar marcas. Tanto que eles tiveram a preocupação de tirar os brincos da repórter, de aplicar brutalidades que não deixassem marcas físicas, já que as psicológicas são difíceis de se apurar materialmente", disse Ferraz.   Após a tortura, os milicianos obtiveram as senhas dos computadores dos jornalistas, viram e leram o conteúdo de textos e fotos. Parte do equipamento estava na casa de outros moradores na favela. Ontem, a Polícia Civil realizou diligências na Favela do Batan e, em duas casas supostamente usadas por milicianos, encontrou uma bomba de efeito moral, partes de um carro desmontado e antenas para TV a cabo clandestina.   Ampliado às 21 horas

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