Presos 14 por lavar dinheiro e atuar em ''tribunal'' do PCC

Grupo, preso em flagrante, é responsável por julgar e executar 4 homens em 45 dias

Bruno Tavares e Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

01 Agosto 2008 | 00h00

Um operação da Polícia Civil desarticulou duas células do Primeiro Comando da Capital (PCC) responsáveis pela lavagem de dinheiro do tráfico de drogas e por manter uma empresa de ônibus, usada para transportar parentes de presos para o interior e distribuir cestas básicas para a facção. O grupo é acusado ainda de manter uma das "seções criminais" do "tribunal" do PCC, que condenou à morte e executou quatro homens em um mês. A última vítima foi julgada e assassinada na madrugada de ontem. Ao todo, 80 policiais atuaram na operação, que contou com a participação de promotores do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). Eles cumpriam 17 mandados de busca e apreensão e prenderam 14 pessoas - 1 escapou. Todos foram autuados em flagrante por formação de quadrilha e alguns também por porte de arma e tráfico de drogas. Foram apreendidos 5 mil pequenas porções de cocaína, 2 pistolas calibre 9 mm, 10 ônibus e 2s carros. As investigações da Delegacia Seccional de São Bernardo do Campo começaram há seis meses, depois que uma unidade da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) enviou aos policiais cópias de documentos apreendidos na cela de um integrante da facção. Além de uma contabilidade do tráfico de drogas na região, havia números de celulares, que passaram a ser monitorados. Durante a apuração, os policiais chegaram ao traficante Paulo Freire da Silva, o Noturno, que já era investigado pelos promotores do Gaeco de Santo André. Com as interceptações, a polícia descobriu que o preso Marcelo Rossinholli, o Marcelinho, um dos líderes da facção, preso na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, controlava o chamado Expresso 15.3.3 - sistema de transporte financiado pelo PCC para levar parentes de detentos a presídios do interior em dias de visita. Investigado em 2006 por suspeita de controlar a contabilidade da facção, Rossinholli mantinha em seu nome a transportadora Anderossi, com sede em São Miguel Paulista, na zona leste da capital. O criminoso tinha como sócia Andrea Martins de Oliveira, mulher de Iran Barbosa da Silva, que é integrante do PCC e divide cela com Rossinholli. Ele é considerado um assistente (o chamado "lagarto") de Rossinholli, chefe de uma das células investigadas. A outra seria liderada por Noturno, acusado de traficar drogas e lavar dinheiro do PCC. "Na investigação, percebemos que o Rossinholli conversava muito com Noturno", afirmou o delegado Marco Antônio de Paula Santos, titular da Seccional de São Bernardo. Segundo ele, Noturno investiu dinheiro do tráfico na compra de uma padaria em Santo André, a Dovanci, aberta em nome de Alberto Dovanci, o Beto Alemão, acusado de ser seu testa-de-ferro. Com Beto Alemão, foram apreendidos dois carros e R$ 15 mil. Noturno era ligado a dois outros importantes integrantes da facção: Renato Kauffman da Costa, o Cauã, e o assaltante de bancos Givanildo Mendes de Araújo, o Cara de Gato, que já estava preso - Noturno e Cauã foram detidos ontem. Os três eram os mais importantes membros do "tribunal" do PCC. XEQUE-MATE A polícia descobriu que o grupo foi responsável pelo julgamento e execução de quatro homens em junho. A operação, aliás, teve de ser deflagrada antes do tempo, porque os policiais tentaram salvar uma das vítimas: Baianinho, um pequeno traficante de drogas no bairro Riacho Grande. Alguns dias atrás, Baianinho discutiu com um homem que foi comprar entorpecente em seu ponto e reclamou da quantidade de droga. "Mais tarde, ele cruzou com esse homem. O Baianinho pensou que o rapaz ia matá-lo, sacou a arma e atirou no rapaz, que morreu", contou o delegado. O que o traficante não sabia era que sua vítima era irmão de um integrante do PCC. A facção considerou o crime uma afronta. Baianinho foi seqüestrado anteontem à noite e levado a um cativeiro. Ali foi montada mais uma sessão do "tribunal". "A opinião do Noturno e a do Cauã foram decisivas. A sentença foi o que chamam de ?xeque-mate?, ou seja, pena de morte", disse o delegado. Entre os juízes do "tribunal" havia presos. Os telefonemas foram gravados. "Tentamos salvá-lo, mas chegamos tarde", disse o seccional. O corpo de Baianinho não foi achado, assim como dois integrantes da facção mortos há um mês. Leandro Carlos de Moraes, de 24 anos, e Gilcimar Mafra Mesquita, de 22, deviam dinheiro ao PCC. "A sentença foi ?xeque-mate?, pois eles teriam se apropriado de dinheiro do PCC.". Em 14 de junho, um dia após o desaparecimento dos dois, Silvana, a mulher de Gilcimar, recebeu um telefonema anônimo. "Disseram: ?se você quiser velar o corpo, vai ter de encontrar o cadáver?." Até agora, a polícia só achou o corpo de uma vítima do "tribunal", acusada de violentar uma enteada. A QUADRILHA PRESOS Renato Kauffman, o Cauã, e Paulo da Silva, o Noturno: Recebiam ordens dos chefes presos em Pres. Venceslau (SP) Gilberto Moreira, o Diego: Chefe do tráfico, acusado de furto e estelionato José F. Siqueira, o Chiquinho: Contatava membros do PCC nos presídios Zélia Cabral: mãe de Márcio Cabral, o Orega, preso. Acusada de fornecer contas correntes para membros da facção Leonardo Sales, o Tchuk: Acusado de tráfico e roubo Márcio dos Santos, o Carioca: Cedia casas para reuniões Thiago Castellani, o Jogador: Cuidava das bocas de fumo do PCC em Santo André Elizeu dos Santos, o Billy Joy: Chefe do PCC em Diadema Andrea Martins: Sócia de Marcelo Rossinholli, um dos líderes, preso Ana Paula Nery: mulher de Rosinholli Efrain de Souza: Acusado de roubo e receptação de veículos Alberto Dovanci: Dono de padaria que lavava dinheiro Romulo Cardoso, o Smith: (atuação não divulgada) FORAGIDO William Santana, o Marlboro: Controlava a região do ABCD

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.