Presos de CDP ameaçam seqüestrador

Detentos querem transferência de Alves; segundo policiais, ele está transtornado e muda de humor bruscamente

Carolina Dall?Olio, O Estadao de S.Paulo

19 Outubro 2008 | 01h00

Detido no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, Lindembergue Alves está sozinho numa cela do Segundo Pavilhão - ele não teria sido aceito pelos detentos do Primeiro Pavilhão. Seu humor, segundo oficiais que acompanharam o preso, sofria alterações bruscas: ora Alves se mostrava extremamente agressivo, ora choroso. Em alguns momentos, o seqüestrador se mostrou transtornado. Pouco antes da invasão, ele disse ao grupo que negociava sua rendição. "Tenho um anjinho e um diabinho do meu lado. Estou ouvindo mais o diabinho." Os presos do CDP não aceitam a presença de Alves. Segundo famílias que fizeram a visita costumeira dos sábados aos presos, a chegada do seqüestrador ao Cadeião, às 2 horas de ontem, provocou irritação nas diversas celas. Os presos já teriam cobrado da diretoria a transferência de Alves e ameaçado matá-lo. Anteontem, traficantes do Jardim Santo André haviam ameaçado expulsar a família do seqüestrador e matá-lo na cadeia, por "afetar o movimento de venda de drogas nas imediações". "Quando souberam que ele estava aí, já começaram a se mexer para expulsar esse cara", comentou a cozinheira Marinalva Pereira Oliveira, de 29 anos, mulher de um detento. Ela e muitas outras mulheres afirmaram que há alvoroço na detenção. "Eles vão fazer a maior bagunça até que o diretor resolva tirar ele daí", garantiu. Inicialmente, o seqüestrador havia sido levado para o 6º Distrito Policial de Santo André, onde se recusou a falar sobre o ocorrido, conforme informou a Secretaria de Segurança Pública. Depois, foi transportado para a sede do Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra), para o Instituto Médico-Legal (IML) de Santo André e, finalmente, para o CDP paulistano. Na cadeia, recebeu a tradicional camiseta branca e calça bege e foi encaminhado ao Regime de Observação (RO), no Segundo Pavilhão. "Um funcionário contou para meu marido que o Lindembergue mal andava quando foi para cela", disse a recepcionista Luanda Moreira, de 23 anos, cujo marido está nessa ala. "Dizem que ele chegou bem machucado." Por razões de segurança, Alves ficará numa cela isolada dos outros presos por pelo menos dez dias, sem direito a visitas de familiares. Após esse período, o seqüestrador deverá ser colocado no convívio normal com outros detentos. Ele poderá até mesmo tomar banho de sol. "Os presos já estão falando que vão matar o Lindembergue", relata Maria do Rosário Silva, de 35 anos. "Se ele estivesse solto, o povo ia linchar. Agora quem vai fazer isso são os presos, quando ele sair da cela individual." O Centro de Detenção Provisória de Pinheiros 2 abriga presos de diversas facções criminosas, incluindo o Primeiro Comando da Capital (PCC). Mas uma das alas do local é destinada a detentos "neutros", que representam menor risco para os presos recém-chegados, como é o caso de Alves. "A gente sabe que na cadeia tem gente que cometeu crime até mais grave que o dele", reconhece Priscila Peres Magalhães, de 27 anos, operadora de telemarketing. "Mas o problema é que esse crime mexeu muito com a gente." A moça ainda argumenta que, como o caso foi bastante divulgado pela mídia, as pessoas se envolveram emocionalmente. "Fiquei revoltada porque me coloquei no lugar da mãe da garota, pensando numa filha minha que quisesse terminar um namoro e tomasse um tiro." Para Priscila, os detentos se colocaram contra Alves também por influência de suas mulheres. "O povo que está preso já se acostumou com crueldade muito pior. Mas eles ficaram com raiva do Lindembergue porque as mulheres estão revoltadas. Eles tomam nosso partido" Alves só deve falar em juízo - seu advogado abandonou o caso após a invasão. Ele não deve receber visitas de familiares pelos próximos dez dias. Até ontem à noite, a mãe dele, Maria das Dores, não havia sido informada de detalhes do desfecho do seqüestro e acreditava que Eloá havia sido atingida apenas por estilhaços da bomba. TRANSFERÊNCIA A Secretaria de Administração Penitenciária não quis se pronunciar sobre as ameaças. Desde ontem, quando o advogado de defesa Eduardo da Silva Lopes decidiu abandonar o caso, o suspeito ficou sem representação jurídica. Em caso de ameaça à segurança do seqüestrador, o advogado que assumir a defesa poderá solicitar à Justiça a transferência do detento para outra cadeia. Alves já teria assumido para um investigador a responsabilidade pelos tiros que atingiram Nayara e Eloá - este, frontal, de perto - e teria isentado a polícia da responsabilidade. O preso, porém, dá a entender que os tiros foram efetuados no momento da invasão - e não antes (mais informações nesta página).

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