Marcelo Regua/ Agência O Globo
Marcelo Regua/ Agência O Globo

Presos de operação contra milícia começam a ser liberados 

Saída foi marcada por expectativa, choro, aplausos e abraços de parentes e amigos

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

26 Abril 2018 | 16h31

RIO - Tudo o que Emílio Fortunato da Cruz Neto queria no dia 6 de abril era festejar antecipadamente seu aniversário de 24 anos num show do Pique Novo, grupo de pagode do qual ele e os amigos são fãs. A noite seria também para celebrar o fato de ter sido escolhido o funcionário do mês da filial do Burger King em que trabalha. Chapeiro da lanchonete, sem nenhum antecedente criminal, acabou preso, sob acusação de envolvimento com milicianos. Ele foi um dos detidos na Operação Medusa da Polícia Civil, no sítio na zona oeste onde os pagodeiros se apresentavam. Cruz era esperado por sua mãe e um grupo grande de parentes na porta da cadeia nesta quinta-feira,27, depois que a Justiça considerou que não havia motivos para manter lá 137 dos 159 encarcerados na ocasião.

 

Mais de 20 presos foram libertados inicialmente nesta quinta-feira do complexo de presídios de Bangu. A saída foi marcada por expectativa, choro, aplausos e abraços de parentes e amigos. Desde cedo, eles esperavam junto à saída do Complexo de Gericinó. Para agonia da família de Cruz, porém, até as 18 horas desta quinta-feira o chapeiro não havia saído.

"É uma situação muito triste. Cheguei às 7 horas, aflita. Meu filho passou o aniversário, dia 8, na prisão. Esses meninos só passaram por isso porque são pobres. Se fosse na zona sul, a polícia não chegava prendendo todo mundo", lamentou a mãe de Cruz, Celia Maria Silva, dona de casa de 50 anos. "A milícia manda em tudo lá em Santa Cruz, inclusive na vida da gente. Não se pode montar uma banquinha na frente de casa que eles cobram da pessoa. Mas meu filho não foi a uma festa de miliciano. Pagou R$ 20 para curtir um pagode".

 

O perfil dos presos na operação no sítio é exatamente o dele: homens pobres, com idades entre 20 e 35 anos, que saíram de casa para se divertir numa sexta-feira. São empregados de restaurantes, garçons, ambulantes, motoristas de ônibus, eletricistas. Por estarem em uma festa supostamente promovida pela milícia conhecida como Liga da Justiça, num sítio usualmente alugado para eventos, foram tachados de bandidos.

"É improvável que a polícia entrasse assim e levasse todos se fosse numa festa no Jockey Clube", disse o defensor João Gustavo Fernandes, que acompanhou nesta quinta-feira a saída dos homens. 

Na quarta-feira, o juiz Eduardo Marques Hablitschek, da 2ª Vara Criminal de Santa Cruz, revogou a prisão preventiva de 137 dos 159 presos. Vinte e um continuarão na cadeia. Antes, um artista circense, Pablo Bessa, também sem provas de ligação com criminosos, já havia sido libertado, depois de apresentar provas de que trabalha e não tem antecedentes criminais.

A libertação dos 137 atende a um pedido do Ministério Público, que considera não haver provas suficientes para embasar uma denúncia contra eles. O órgão defende a permanência na cadeia só dos 21 suspeitos. A Defensoria Pública não vê elementos na investigação nem mesmo para a manutenção destes em Bangu.

 Nesta quinta, funcionários do Complexo Penitenciário de Gericinó montaram uma espécie de força-tarefa para dar conta da liberação coletiva dos presos. No momento da saída e reencontro emocionado com as famílias, alguns relataram terem sido agredidos verbal e fisicamente pela polícia. Anonimamente, pelo menos três contaram que foram tratados "como bichos". Eles agora se preocupam com o fato de estarem com a ficha criminal.

André Gomes, de 32 anos, funcionário de um supermercado, pretende processar o Estado.  "Isso vai ser arquivado para o resto da minha vida. Vou querer meus direitos. Sou uma pessoa honesta. Não desejo o que passei para ninguém", afirmou.

O barqueiro Abne Siqueira relatou a atuação da Polícia. "Eles chegaram de preto, atirando, xingando. A gente não sabia se era bandido ou policial. Só entendi que era da polícia quando mandaram que a gente dissesse 'eu amo a Core (Coordenadoria de Operações Especiais da Polícia Civil)'", contou o homem de 27 anos, preso com o irmão e o primo. "Fui para um evento normal, pago, onde cantariam bandas famosas."

O ajudante de motorista Anderson Castro disse que "não queria ficar com essa mancha". "A gente trabalha a semana inteira e só queria relaxar numa sexta-feira. Tenho 19 anos, estou começando minha vida agora, terminei meu curso de eletrotécnico", contou.

O eletricista disse que o aconteceu foi "muita injustiça". "A polícia acha que todo pobre é criminoso. A gente já não tem muita opção de lazer. Estava com a minha mulher para curtir o show do Swing Simpatia. Às 3 da manhã, chegaram atirando. É algo que nunca imaginei passar na minha vida", relatou o eletricista André Xavier, de 27 anos. A previsão era que todos os presos fossem libertados ainda nesta quinta-feira. 

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