Presos dois suspeitos de roubar armas do Exército

O Exército prendeu nos últimos dois dias dois ex-militares, principais suspeitos até agora do roubo de dez fuzis e uma pistola de um quartel, no dia 3, no Rio. O Comando Militar do Leste (CML) negou nesta quarta ter feito acordo com traficantes para reaver as armas - elas foram recuperadas na terça-feira (14), numa trilha perto da favela da Rocinha, zona sul do Rio. A Polícia Civil disse que as armas ficaram nove dias enterradas no Morro da Mangueira e deu detalhes sobre a estratégia usada para recuperá-las.Um dos ex-militares, Joelson Basílio, detido nesta quarta, serviu até fevereiro no Estabelecimento Central de Transporte (ECT), em São Cristóvão, de onde foram roubadas as 11 armas. O reconhecimento por um militar que estava de serviço no momento do crime foi determinante para a prisão do ex-cabo Joelson Basílio. Silva prestou depoimento ontem na 4.ª Auditoria da Justiça Militar no inquérito que apura o caso. O Ministério Público Militar (MPM) informou já ter indícios para prisão de outros militares e ex-militares em breve.Na terça-feira, Leandro Saturnino, um ex-cabo que serviu em outra unidade, já havia sido capturado, na Rocinha. O Ministério Público Militar (MPM) informou já ter indícios para pedir a prisão, em breve, de outros militares e ex-militares em breve.CivilA informação de que os fuzis e a pistola estavam na Mangueira, zona sul, foi levantada pela inteligência da polícia, disse a chefe de Investigação da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), Marina Maggessi. A Mangueira foi, com o Morro da Providência, no centro, o principal foco da ação militar no Rio - ambos são redutos da facção Comando Vermelho (CV).Marina afirmou que, no fim de semana, as tropas recuaram para facilitar a movimentação dos traficantes e a devolução das armas. "O tráfico não agüentou a pressão e capitulou. O inédito da operação não foi o Exército ocupar favelas, mas a resposta pesada e imediata. Os criminosos não esperavam por isso."De acordo com a investigadora, o grupo de traficantes que planejou o roubo ao quartel é o mesmo que, em 15 de fevereiro, tentou tomar pontos-de-venda de drogas na Rocinha, numa ação desastrada que deixou seis mortos. Na ocasião, eles perderam oito fuzis - seis apreendidos pela polícia e dois abandonados na fuga.Participaram do ataque traficantes dos Morros do Borel, Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, Andaraí e Formiga. Mangueira e Providência ficaram de fora porque era véspera de carnaval, época do ano de maior lucro para o tráfico nessas áreas (a Mangueira, por causa dos ensaios na quadra da escola de samba; a Providência, por ficar perto do sambódromo).Sem dinheiro para comprar armamento, o grupo assaltou o ECT. A Mangueira foi usada como base para a ação, por causa da proximidade com o quartel. Com o cerco aos dois morros controlados pelo CV, os traficantes não tiveram como devolver as armas. "Numa excelente estratégia, que nós na polícia aplaudimos, o Exército se retirou da Mangueira no fim de semana, para que eles pudessem se movimentar", disse Marina.Os traficantes, então, decidiram esconder as armas num supermercado abandonado em frente ao Borel, na Tijuca. "Mas não houve tempo para isso, porque o Exército chegou lá antes", disse a investigadora, referindo-se a uma operação realizada pelas tropas no domingo.Os fuzis ficaram no Morro do Borel. Na terça-feira, quando os militares ocuparam a Rocinha, os traficantes saíram com as armas por uma trilha na mata, pela Floresta da Tijuca, e abandonaram o arsenal no Esqueleto - estrutura de um hotel cujas obras foram abandonadas. "Aquele local está mais perto da casa do prefeito, na Gávea Pequena, do que da Rocinha."Ao comentar o caso, o prefeito do Rio, Cesar Maia (PFL), disse hoje ter recebido a informação de que as armas haviam sido recuperadas na segunda-feira à noite e não na terça. "Trabalho com as informações que eu tenho, de que as armas tinham sido localizadas e se encontrou o melhor momento - e acho que foi o melhor momento mesmo - para a apresentação das mesmas."O Exército reafirmou que só soube da localização das armas no início da noite de terça-feira e negou ter negociado com o tráfico para recuperá-las. "Não negociamos com foras-da-lei", disse o general Hélio Macedo, chefe do Estado-Maior do CML, que concedeu entrevista com o secretário da Segurança do RJ, Marcelo Itagiba. "Não há negociação possível com nenhum criminoso. Esta informação é inconsistente e inverídica", disse Itagiba, que chamou de "leviana" a afirmação de Maia.Em Brasília, o Comando do Exército repudiou as notícias sobre o acordo com o CV. O comandante do CML, general Domingos Curado, reafirmou o teor de declarações dadas à reportagem: "O Exército não faz acordo com criminosos. Só age dentro da lei e a pergunta é absurda."

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